Transforming Transportation: o papel do uso do solo no desenvolvimento das cidades
“Estamos enfrentando uma crise. As ferramentas que usamos para construir as cidades não eram adequadas para o passado e ainda não são para o presente. Precisamos não apenas pensar os espaços urbanos de outra forma, mas também agir com rapidez”. Com esse alerta, o especialista do Banco Mundial Victor Vergara abriu o painel “Construindo cidades compactas através do planejamento integrado do uso do solo e de transportes”, que aconteceu na tarde de quinta-feira (14), no Transforming Transportation 2016, em Washington DC.
Luis Antonio Lindau, Diretor do WRI Brasil Cidades Sustentáveis; Guilherme Medeiros, Coordenador do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável da Região Metropolitana de Florianópolis (PLAMUS); Luong Minh Phuc, Diretor do BRT de Ho Chi Minh (Vietnam); e Sanjay Shukla, Secretário do Departamento de Habitação e Meio Ambiente de Chhattisgarh (Índia), trocaram experiências e discutiram os desafios para o desenvolvimento de cidades mais compactas, coordenadas e conectadas.
A criação de modelos de financiamento e de mecanismos de governança se destacaram nas falas dos painelistas como importantes ferramentas para promover modelos de crescimento urbano mais sustentáveis. Além de buscar alternativas financeiras, as cidades precisam estruturar seus projetos de forma conjunta com a sociedade civil. “Quando se começa a falar com as pessoas e são estabelecidas regras claras de diálogo, a população tende a dizer o que quer e se posicionar a favor dos projetos”, pontuou Lindau.
Planejamento integrado: essência para o sucesso
O exemplo da região metropolitana de Florianópolis foi apresentado por Guilherme Medeiros, que agradeceu a oportunidade de trocar experiências em um evento internacional. O especialista reforçou o papel da participação social na tomada de decisões como fator de sucesso para o plano: “A contribuição do WRI Brasil Cidades Sustentáveis foi muito importante para engajar e construir a confiança da sociedade em escala metropolitana. A relação acabou se fortalecendo ao longo do processo, e a sociedade se tornou porta voz do plano”.

Guilherme Medeiros, representando formalmente a Superintendência do Desenvolvimento da Região Metropolitana da Grande Florianópolis - Suderf (Foto: WRI Ross Center for Sustainable Cities)
Atualmente, 140 mil pessoas deslocam-se diariamente do continente para a ilha de Florianópolis, o que representa 85% das viagens diárias da região – e metade delas é feita por transporte individual motorizado. Entre as causas do alto índice de motorização, Medeiros destacou o crescimento urbano disperso. Para reverter a situação, a cidade está apostando em uma política de transporte inovadora e integrada ao uso do solo, além do desenvolvimento de políticas ambientais e de desenvolvimento econômico.
Belo Horizonte é outro exemplo de sucesso do planejamento integrado de transportes e uso do solo. A cidade investiu e hoje conta com um sistema BRT que atende 500 mil pessoas e trabalha para qualificar a mobilidade de seus moradores. Conforme mostrou Lindau, as duas cidades são referências no planejamento integrado: “Há um elemento chave nos exemplos de Belo Horizonte e Florianópolis, que é a análise do papel dos transportes no desenvolvimento urbano. Nos dois casos, a integração entre o planejamento de transportes e do uso do solo foi crucial, com a avaliação prévia dos diferentes cenários possíveis e diálogo com a sociedade. Essa abordagem foi determinante tanto para o sucesso das cidades quanto para obter o apoio da população”.
Luong Minh Phuc apresentou o planejamento do corredor de BRT de Ho Chi Minh, principal centro econômico e maior cidade do Vietnam, com 8,2 milhões de habitantes. A cidade pretende investir na implantação de um sistema BRT, visando a um modelo mais integrado e sustentável de crescimento. O projeto tem potencial para se firmar como um bom exemplo de desenvolvimento orientado ao transporte sustentável (DOTS), focando na acessibilidade, nos pedestres e na densidade ao redor do corredor. A aplicação dos princípios do DOTS no planejamento das cidades é uma forma de torná-las mais funcionais e sustentáveis, e essa também é uma prioridade para Chhattisgarh, na índia, como apontou Sanjay Shukla: “Não é apenas o transporte de massa que importa, mas também as políticas de uso do solo. A relação entre esses dois elementos é o que determina como a cidade vai se desenvolver”.
