Transforming Transportation 2017: uma nova narrativa para o acesso ao transporte
Um dos princípios do transporte sustentável é que ele seja para todos. Isso significa mover toda a população e bens de maneira eficiente, segura e equitativa com menor impacto ambiental possível. Especialmente em 2016, diversos compromissos climáticos foram assinados por centenas de países e a mobilidade urbana é ponto crucial nesse contexto. A determinação e esforço das nações é o que vai definir o futuro do planeta.
Estabelecer uma mensagem forte e clara é necessário para o engajamento dos governos, das instituições e, principalmente, da sociedade. Foi com essa ideia que Andrew Steer, Presidente do World Resources Institute, abriu o Transforming Transportation 2017, em Washington, DC, evento co-organizado pelo Banco Mundial e pela EMBARQ, iniciativa de mobilidade urbana do WRI Ross Center for Sustainable Cities. "Vejo que hoje os projetos de mobilidade urbana possuem uma narrativa e uma visão muito melhor. As discussões e o engajamento estão crescendo. Para uma melhor mobilidade, precisamos ser politica e psicologicamente mais inteligentes do que éramos no passado ", analisou Steer.
A plenária "Making Transportation Work: Sustainable Mobility for All" (Fazendo o Transporte Funcionar: Mobilidade Sustentável Para Todos, em tradução livre) reuniu representantes de três países, Índia, Holanda e Chile para falar sobre suas experiências de governo. Carolina Toha, ex-prefeita de Santiago e integrante do Grupo Consultivo de Alto Nível do Secretário Geral das Nações Unidas em Transporte Sustentável, lembrou da importância do protagonismo das cidades nas decisões. "As cidades precisam ter suas vozes ouvidas. O planejamento deve ser de baixo para cima", disse. Santiago foi a vencedora da última edição do Sustainable Transport Award (STA) graças à quantidade de realizações focadas no transporte ativo, especialmente no deslocamento a pé. “Se as cidades não tiverem acesso a financiamentos, elas não terão uma voz”, afirmou.
Rajiv Gauba, secretário do Ministério de Desenvolvimento Urbano da Índia, falou sobre a importância da mobilidade no Plano Nacional de Ação às Mudanças Climáticas do país, baseado em oito missões centrais, sendo o transporte uma delas. Segundo ele, a mudança já é sentida. "Para mim a nossa maior conquista até agora é que a caminhabilidade e a bicicleta estão novamente na moda", exaltou.
Já Petrouschka Werther, vice-diretora do Ministério do Ambiente da Holanda, falou sobre os objetivos do país para mudanças ambiciosas dos próximos anos. O parlamento holandês trabalha para proibir a venda de carros movidos a diesel e gasolina a partir de 2025. "Acredito que não só cada país deve se desafiar, mas também precisamos de padrões internacionais de emissões de gases de efeito estufa por meios de transporte", afirmou.
Patrick Oliva, Vice-Presidente senior do Grupo Michelin, aposta em duas ações para transformar o transporte. A primeira delas é um macro plano para os próximos 40 anos para que os tomadores de decisões possam saber que caminho tomar. "Pode-se assim criar uma sinergia entre os países", lembrou. A segunda ação é liberar o poder e a criatividade dos novos empreendedores, para que novas soluções sejam criadas. “Governos locais estão como nunca com o poder sobre os transportes”, afirmou Alain Flausch, secretário-geral da Associação Internacional de Transportes Públicos (UITP). "Estamos em uma encruzilhada, precisamos mudar a maneira como as pessoas usam e aproveitam a mobilidade", disse Jose Viegas, secretário-geral do Fórum Internacional de Transportes (ITF).
Uma nova forma de passar a mensagem
O segundo painel, "Updating the Narrative: Transport, Access and the Economy" (Atualizando a Narrativa: Transporte, Acesso e Economia, em tradução livre) colocou em pauta uma nova forma de falar e pensar a mobilidade do futuro. Um relatório recém-lançado pelas Nações Unidas afirma que uma mudança transformadora no transporte sustentável poderia ocorrer através de investimentos anuais de US$ 2 trilhões. O estudo estima ainda que esforços para promover o transporte sustentável podem gerar uma economia de US$ 70 trilhões até 2050. No entanto, muito precisa ser feito e conquistado. "Uma narrativa é fundamental. Então, o que podemos fazer para melhor passar a mensagem sobre todos os problemas? Precisamos fazer do transporte sustentável e da mobilidade assuntos politicamente atrativos”, destacou Ani Dasgupta, diretor global do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis.
Essa nova forma de contar, conforme Paul Romer, economista chefe e vice-presidente sênior do Banco Mundial, precisa ligar a mobilidade ao crescimento e ao desenvolvimento urbano: “Podemos ajudar a descrever as prioridades nas cidades, pensar o que deve ser feito antes e trazer mais investimentos e capacidades”.
O acesso às cidades é um tema crescente nas discussões da mobilidade sustentável atualmente. A aprovação da Nova Agenda Urbana gerou um momento de engajamento após a Habitat III, em Quito, em que os países se comprometeram a construir uma visão de cidades para todos. Abdullah Habibzai, atual prefeito de Cabul, relatou que, meses atrás, quando assumiu o cargo, a cidade não contava com uma narrativa de sustentabilidade: “As ruas eram cheias de carros e nenhum espaço para as pessoas”. Hoje, Cabul começa a fazer planos concretos e buscar conhecimento técnico para encontrar as soluções. A capital do Afeganistão se depara hoje com três principais desafios: crescimento acelerado da população, falta de capacidade técnica e o espraiamento territorial. “Existe uma vasta lacuna de capacidade nas cidades para a tomada de ação. É necessária uma colaboração entre os governos regionais para que as instituições também possam ajudar”, afirmou Ani. “A variabilidade de custo entre as regiões e os países é um fator importante para o acesso às cidades. Acessibilidade é muito mais que apenas mobilidade, é também sobre conectar pessoas a pessoas, empresas a empresas e pessoas a trabalho e a oportunidades”, destacou Somik Lall, economista-chefe do Banco Mundial.
As respostas podem ser encontradas, segundo Mitch Jackson, vice-presidente para questões ambientais e sustentabilidade da FedEx Corporation, na tecnologia: “Quando olhamos para o transporte holisticamente, vocês pode ver uma série de soluções que podem ser tomadas. Quando os congestionamentos pararem as cidades, como elas vão ser competitivas? A tecnologia pode encontrar soluções em diversos contextos, nunca em silos”.
Sylvie Lemmet, diretora-geral para os Assuntos Europeus e Internacionais do Ministério do Meio Ambiente, Energia e do Mar da França, falou do projeto MobiliseYourCity, que dá suporte a governos locais e nacionais de países em desenvolvimento no planejamento da mobilidade urbana. O objetivo da iniciativa é ajudar as cidades nos seus esforços para cortar pelo menos 50% das emissões relacionadas ao transporte até 2050. "Os prefeitos estão realmente interessados em olhar para o futuro. Os desafios assumidos pelas cidades podem inspirar outras", afirmou.
O Transforming Transportation reúne anualmente especialistas em desenvolvimento urbano de governos nacionais e locais, pesquisadores, representantes de fundações e empresas de todo o mundo e sociedade civil para compartilhar ideias e experiências acerca da mobilidade urbana. O evento continua nesta sexta-feira com transmissão ao vivo.
