Transforming Transportation 2017: transição para nova mobilidade exigirá regulamentação e planejamento
Se o cenário permanecesse como hoje, as emissões de gases de efeito estufa com origem no transporte subiriam de 23% para 33% do total de emissões até 2050. Além de mudar a narrativa, as cidades precisam encarar um futuro que promete transformações intensas na mobilidade urbana. As tecnologias disruptivas que dão base a essa nova mobilidade, caracterizada por serviços como bicicletas compartilhadas, carros compartilhados, transporte sob demanda, entre outros, dão às cidades novas ferramentas para atender, de forma sustentável, à necessidade de deslocamento das pessoas. E devem ter um papel crucial nas transformações do meio urbano, que começa a ser cada vez mais discutido.
"A chave para o problema não é mudar a mobilidade para as pessoas que já possuem a capacidade de ir do ponto A ao ponto B, mas sim expandir o acesso a locais onde a mobilidade ainda não está presente. Precisamos mudar a mobilidade como um todo", destacou William Chernicoff, que trabalha com pesquisas energéticas e de meio ambiente na Toyota, durante o segundo dia do Transforming Transportation 2017, evento co-organizado pelo Banco Mundial e pelo WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis.
Na opinião do diretor da Shell Foundation, Sam Parker, a tecnologia por si só não irá resolver os problemas de mobilidade urbana. “Precisamos estudar onde estão os grandes problemas e demandas primeiro", disse Parker. Para ele, é preciso ser responsivo às necessidades e aos contextos dos países em desenvolvimento. Ele acredita que ainda há barreiras para que a nova mobilidade traga benefícios sociais. Para muitos países em desenvolvimento, aplicativos de transporte sob demanda, como Uber, Lyft e outros, são extremamente caros, devido a sua escala. "Precisaremos pensar em como atender a essas populações para que a inovação funcione para elas. Não pense que a tecnologia fará tudo - o sucesso depende do modelo de negócio", afirmou.
O relatório Shared Mobility and the Transformation of Public Transit aponta, por exemplo, que os aplicativos poderiam suprir os “buracos” deixados pelos serviços públicos. Conforme a pesquisa, pessoas que utilizam o transporte público e esses serviços compartilhados estão transformando suas formas de locomoção, o que resulta em mais caminhabilidade, menos carros e mais economia devido aos menores custos de transporte. "Compartilhados, autônomos e elétricos, se integrados, carregam enormes promessas de redução de emissões e de carros particulares", afirmou Emily Castor, diretora de políticas de transportes da Lyft, empresa de carros compartilhados.
O problema central das grandes cidades em todo o mundo é a quantidade de carros particulares e o mau uso deles. Veículos transportando uma pessoa e ocupando um imenso espaço nas vias urbanas que muitas vezes não podem mais ser ampliadas. Os meios de transporte coletivos e o transporte ativo sempre serão as melhores opções. Porém, é na ideia da "last mile transport" (o transporte do último quilômetro, em tradução livre) que a nova mobilidade pode ser impulsionada. Nem todas as pessoas vivem em áreas próximas ao transporte de massa ou podem ir caminhando ou pedalando até uma estação. A ideia de proporcionar uma alternativa ao "último quilômetro” visa ainda desestimular a compra do carro próprio.
"Nosso objetivo era o de fazer as pessoas se livrarem de seus carros próprios porque dessa maneira eles iriam se tornar muito mais racionais e conscientes de suas viagens e do uso do carro. Prover acesso a modos alternativos de transporte - especialmente os compartilhados - é onde está a maior promessa. No entanto, essas alternativas precisam ser de boa qualidade, não podem afastar as pessoas e fazê-las voltarem a seus carros próprios", destacou Robin Chase, fundadora do Zipcar, atualmente a maior companhia de carros compartilhados do mundo, que permite aos usuários alugar veículos mensalmente ou anualmente. "Para liberar todo o potencial das redes de veículos compartilhados, precisamos conectar frotas e ecossistemas. É crucial que criemos uma política ambiental que apropriadamente mensure as perdas nos congestionamentos, acidentes e emissões antes colocar os carros autônomos em circulação. Os compartilhados precisam ser livres de emissões imediatamente", contrapôs Robin.
Para Cuneyt L. Oge, presidente da Society of Automotive Engineers (SAE), os prefeitos das cidades têm nas mãos a possibilidade do transporte sustentável. "Da forma como a população irá crescer nas cidades, as soluções para o transporte sustentável serão impulsionadas pelos prefeitos. Unir eletricidade é onde o futuro da mobilidade está" Para Oge, à medida que nos aproximamos da nova fase da mobilidade, fica ainda mais claro que o mundo precisa se unir para definir padrões de segurança e emissões.
A barreira da regulamentação
Em um recente relatório publicado pelas Nações Unidas, a organização cita a tecnologia como um recurso chave para o cumprimento de planos de mobilidade e aplicação verdadeira do “evitar-mudar-melhorar". No entanto, a regulamentação de novos serviços pode gerar grandes discussões e postergar possíveis benefícios para a mobilidade urbana. Por outro lado, autorizar novas alternativas, muitas vezes sem estudos de impacto, pode gerar efeitos negativos a longo prazo.
São Paulo se mostra à frente em termos de regulamentações e promove um esforço para equilibrar os objetivos de promover inovações e integrá-las de forma eficiente ao sistema de transporte já existente. A cidade estabeleceu uma meta de número de veículos nas ruas e utiliza o preço como uma ferramenta para controlar essa meta. A precificação também foi alterada para uma tributação progressiva em função do tamanho das empresas de transporte sob demanda, como Uber, Lyft, EasyTaxi, entre outros. Isso ajuda a incentivar a oferta do serviço em horários ou locais nos quais o transporte público não atende.
Ciro Biderman, diretor executivo do MobiLab, laboratório de soluções para a mobilidade da cidade de São Paulo, participou do painel e explicou como São Paulo encara esse cenário de novas regulamentações. “Se não regularmos agora, nós não seremos capazes de lidar com isso no futuro”, registrou, sugerindo ainda o uso de um novo modelo de tributação do solo que inclui as ruas. A função do setor público continuará sendo a de atender demandas da população da forma mais segura possível. O setor privado e as novas tecnologias poderão usar dos novos modelos de transporte peer-to-peer para suprir lacunas deixadas pelo transporte de massa, por exemplo.
Luis Antonio Lindau, diretor do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, destacou que existe a necessidade de melhores estruturas de regulação para as transformações em diferentes áreas urbanas. Segundo ele, ainda não temos as regulamentações capazes de impedir que todo o sistema de transporte das cidades seja prejudicado pelas novas alternativas. "Fizemos alguns estudos interessantes em Porto Alegre e Belo Horizonte para prospectar o que poderia ser feito e, após longas conversas com tomadores de decisão, temos a sensação de que as pessoas concordam que, se tem alguém que deve ser cobrado pelos congestionamentos, são os proprietários dos carros".
Algumas cidades estão preocupadas com o rápido desenvolvimento da tecnologia, conforme afirmou Peter Jones, professor de Transporte e Desenvolvimento Sustentável do Imperial College de Londres, porém ainda existe tempo. "Os carros compartilhados pegaram as entidades reguladoras de surpresa. A automação, por outro lado, está ainda em um estágio inicial, o que dá às cidades e aos governos uma chance de antecipar mudanças e planejar com antecedência", lembrou.
A regulamentação da nova mobilidade vai muito além da preocupação da segurança do passageiro ou das formas de pagamento, por exemplo. Ela abrange ainda questões de leis de trabalho, direitos e deveres de quem presta o serviço, entre outros inúmeros fatores. Ahu Serter, fundadora do ARYA Women Investment Platform, instituição que cria oportunidades de investimentos com parcerias estratégicas de empreendedorismo liderado por mulheres, destacou a importância de se trabalhar rápido com as regulamentações, tão rápido quanto as próprias tecnologias.
Para Lewis Fulton, diretor do programa STEPS (Sustainable Transportation Energy Pathways), da Universidade de Califórnia Davis, os três fatores que iniciarão a revolução dos transportes são os veículos elétricos, as informações em tempo real e a automatização. O STEPS procura estudar novas ferramentas centradas em tecnologia que produzam alternativas de transporte sustentável. O programa reúne membros dos principais fabricantes de automóveis, empresas de energia e agências governamentais para colaborar nas pesquisas. Fulton apresentou um estudo sobre diferentes cenários em que as três ferramentas "revolucionárias" alterariam as cidades e seus contextos de mobilidade em um futuro próximo. "Como podemos usá-los para tornar as cidades mais compactas e de qualidade no futuro, evitando as más consequências do espraiamento e das cidades congestionadas?", questionou.
Como colocou Futlon, a nova mobilidade pode transformar as cidades em paraísos, com sistemas multimodais, viagens compartilhadas, menores tempos de viagem, energia limpa, ou em infernos, com mais carros nas ruas, usuários trocando o sistema de transporte coletivo por mais carros, gerando mais congestionamentos e emissões. As discussões e regulamentações do presente serão a base para determinar esse cenário futuro.
