Por que as cidades precisam de inventários de emissões
Mensurar a quantidade e a origem das emissões é a base para estruturar um plano de ação efetivo. Não por acaso, a primeira etapa a ser cumprida pelas cidades signatárias do Compacto de Prefeitos é a realização do inventário de gases do efeito estufa – assunto debatido, nesta quinta-feira (25), no segundo dia de atividades da II Jornada sobre Cidades e Mudanças Climáticas.
Laura Valente de Macedo, consultora do WRI Brasil, moderou a sessão que, em dois workshops paralelos, abordou a elaboração de inventários de emissões em governos locais e o levantamento de riscos e análise de vulnerabilidade nas cidades. Com a participação de João Resch Leal, João Wagner, Laura Ceneviva e Roberto Strumpf, foram apresentadas diferentes metodologias de inventários e a análise de como essas metodologias se inter-relacionam quando aplicadas em diferentes contextos urbanos.

Laura: inventários de emissões estão relacionados também à qualidade de vida nas cidades. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Sócio-Diretor da Pangea Capital, Roberto Strumpf tem experiência na aplicação da metodologia GPC e explicou as principais características: “É um método que, principalmente, permite mensurar as emissões de uma maneira muito clara, porque as divide em escopos. Em se tratando de energia elétrica, por exemplo: o município produtor reporta as emissões no escopo 1, enquanto o município consumidor dessa energia reporta as emissões no escopo 2. Isso evita que a contagem seja feita duas vezes”. Mais do que a quantidade, os inventários identificam a origem das emissões, mostrando qual setor – transportes, resíduos ou energia, por exemplo – é o principal culpado pela poluição atmosférica em uma cidade. “Isso faz com que os inventários sejam ferramentas de gestão”, aponta Strumpf, “sabendo a origem das emissões, as lideranças municipais têm em mãos as informações necessárias para a tomada de decisões relativas às políticas climáticas”.

Strumpf: inventários são instrumentos de gestão para gestores municipais. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Além do GPC, outras metodologias também podem ser utilizadas para fazer um inventário de emissões, como é o caso do método do IPCC, por exemplo, utilizado no primeiro inventário de São Paulo. Com diferentes metodologias disponíveis, contudo, é necessário atentar às particularidades de cada uma e suas implicações no cálculo, como analisou João Wagner, da Divisão de Questões Globais da CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo). O especialista destaca que, embora não seja possível comparar inventários realizados a partir de diferentes métodos, construí-los é necessário: “Fazer um inventário de emissões é trabalhoso e pode demorar um pouco, mas é possível – e necessário para as cidades, se quiserem reduzir suas emissões e melhorar a qualidade de vida das pessoas”.
Por que os governos nacionais e locais devem mensurar suas emissões e como integrar os inventários nas políticas nacionais foram outras questões debatidas pelos especialistas com o público de cerca de 40 pessoas que acompanhou a discussão. A emergência climática que vivemos hoje impulsiona a necessidade de as cidades construírem planos de ação climáticos – e a realização do inventário de emissões, como pontuou Laura, é uma etapa que não pode ser pulada.

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Para mostrar como a medida pode beneficiar a população e a vida nas áreas urbanas, representantes de duas capitais brasileiras apresentaram exemplos bem-sucedidos. São Paulo, que em 2009 foi a primeira cidade brasileira a adotar uma política municipal de mudanças climáticas, foi um deles. “São Paulo é a maior cidade do Brasil e, como tal, tem de lidar com as implicações de uma população numerosa que demanda serviços constantemente. Em função disso, a cidade precisa fazer seus inventários – a fim de conhecer a origem de suas emissões e estabelecer metas de redução”, ressaltou Laura Ceneviva, Secretária Executiva do Comitê Municipal de Clima e Economia da Prefeitura de São Paulo. A capital paulista já vem trabalhando em diferentes frentes para alavancar a sustentabilidade urbana, tornando-se exemplo para as demais cidades brasileiras.

João Resch Leal, Diretor Geral de Ecologia Urbana da Prefeitura de Salvador, falou brevemente sobre as frentes de ação da capital baiana. Nos últimos anos, a cidade avançou consideravelmente no trabalho com programas de adaptação e mitigação. Por meio da Secretaria de Cidade Sustentável, Salvador já implementou medidas como o IPTU verde e trabalha em três planos de ação – de Resiliência, Plano Municipal de Meio Ambiente e Plano Diretor de Arborização Urbana. “Em Salvador, tivemos o apoio da Pangea, do ICLEI e do WRI Brasil e, com isso, conseguimos realizar nosso inventário com sucesso. Foi o que nos permitiu perceber, entre outras coisas, o quanto as emissões originadas pelo setor de transportes são significativas na cidade e, a partir daí, estruturar ações para resolver o problema”, afirmou.
As mudanças climáticas influenciam diretamente a vida nas cidades: inundações deixam bairros inteiros alagados, fortes tempestades deixam outros sem luz, famílias precisam sair de suas casas – sem falar nas vidas perdidas. Com os fenômenos extremos cada vez mais frequentes e efeitos cada vez mais intensos, urge que as cidades estejam preparadas. Mensurar as emissões e descobrir sua origem, para assim poder estruturar ações para reduzi-las e amenizar seus impactos no meio ambiente, é a base do combate às mudanças no clima. “Os governos locais precisam mostrar à população por que é importante medir as emissões. Não podemos esperar para agir”, finalizou Laura Macedo.
