Por que agora é o momento de tornar prioridade o acesso à energia nas cidades
Este texto foi escrito por Michael Westphal, Sarah Martin e David Satterthwaite e publicado originalmente no site do WRI.
Líderes urbanos do mundo todo estarão reunidos em Quito, no Equador, entre 17 e 20 de outubro, para definir a agenda global para o futuro das cidades na Conferência das Nações Unidas sobre Habitação e Desenvolvimento Urbano Sustentável, a Habitat III. Por meio do World Resources Report (WRR), relatório sobre cidades sustentáveis, o WRI apresenta pesquisas para ajudar a criar cidades em que as pessoas possam viver, se deslocar e prosperar.
Adelaida, bancária e mãe nascida e criada em Acra, em Gana, é uma típica moradora de classe média da capital de Gana. Ela ganha cerca de US$250 por mês, mas como gasta quase um quarto de sua renda em eletricidade, é considerada pobre em energia. Enquanto a maioria das casas de Acra é conectada à rede nacional de energia, sua família tem o acesso frequentemente impossibilitado devido ao alto custo. O serviço não é apenas muito caro como também é constantemente interrompido por cortes de energia sem aviso, o que dificulta a capacidade de Adelaida cumprir com suas tarefas domésticas e armazenar comida.
Quando os delegados se reunirem em Quito para a Habitat III a fim de adotar a Nova Agenda Urbana – uma visão para cidades inclusivas, resilientes e sustentáveis –, devem se lembrar das Adelaidas do mundo. Como mostra um dos capítulos do World Resources Report, ainda a ser publicado, garantir acesso à energia de baixo custo e às oportunidades econômicas que esse acesso traz é essencial para um futuro urbano próspero e sustentável.
O lado urbano do acesso à energia
O acesso à energia é geralmente analisado a partir da visão rural, mas segue sendo um problema urbano incômodo e esquecido. Nas áreas urbanas ao redor do mundo, 132 milhões de pessoas não têm acesso à eletricidade e 482 milhões cozinham em combustíveis sólidos “sujos”, como madeira e carvão. As cidades que já estão lutando para fornecer energia limpa, com preço acessível e confiável para seus habitantes, provavelmente acharão desafiador manter o ritmo até 2050, quando a expectativa é de que a população urbana cresça em 2,5 bilhões, sendo a maior parte na África e na Ásia.
Energia é um pré-requisito para o crescimento econômico e para a produtividade, já que fornece os serviços necessários para os lares e as atividades das pessoas. Além disso, a forma como uma cidade consome energia tem um grande impacto na saúde. Por exemplo, a poluição do ar por consumo doméstico de combustíveis sólidos representou 3,5 milhões de mortes a nível mundial em 2010. Sendo assim, as cidades nas regiões de rápida urbanização do mundo enfrentam três desafios fundamentais:
1. Como fornecer acesso de qualidade à energia e resolver os incômodos problemas de confiabilidade e custo?
A população de baixa renda de centros urbanos dos países em desenvolvimento gasta uma parcela significativa de sua renda em energia, geralmente entre 14% e 22%. Em Kibera, comunidade no condado de Nairobi, no Quênia, os gastos com energia podem chegar a 20% ou 40% da renda mensal. Até mesmo onde a população tem acesso à energia, a falta de confiabilidade e a ineficiência podem ser graves problemas, especialmente no Sul da Ásia. Por exemplo, o número médio de interrupções mensais de energia nas empresas da região ultrapassou 25 em 2013. Por causa dessa falta de confiabilidade, pessoas e empresas com conexões em rede são obrigadas a usar geradores a diesel para complementar o abastecimento – com custo mais alto do que o da rede convencional.
2. Como aumentar o serviço de energia, melhorando sua eficiência?
Em diversas grandes cidades dos países em desenvolvimento, as crescentes taxas de consumo de energia excedem em muito o crescimento populacional. Embora o aumento desse consumo seja um imperativo do desenvolvimento, será difícil para muitas cidades manterem essas taxas, ainda mais levando em conta as ineficiências e perdas nas linhas de transmissão. Em Lagos, por exemplo, essas perdas são estimadas em 40% do total do consumo de eletricidade, comparado com menos de 10% em Londres ou Los Angeles.
3. Dada a urgência climática, como mudar para energias mais limpas e menos intensivas em carbono?
Cidades dos países em desenvolvimento não podem seguir os modelos não sustentáveis de desenvolvimento de cidades mais ricas e desenvolvidas. Reduções dramáticas nas emissões de gases de efeito estufa (GEE) são necessárias – ao menos de 40% a 70% abaixo dos níveis globais de 2010 – para que se tenha uma chance do aquecimento global ficar abaixo de 2ºC (3.6 graus Fahrenheit) até o fim do século. E, como são responsáveis por cerca de 70% das emissões globais, as cidades têm um papel substancial nos esforços de mitigação.
Explorando potenciais soluções urbanas
O capítulo do WRR sobre energia trará a pergunta-chave: como as cidades dos países em desenvolvimento podem, simultaneamente, fornecer serviços de energia mais limpos, mais acessíveis e mais confiáveis para a população carente ao mesmo tempo em que asseguram uma economia próspera e buscam mais qualidade para o meio ambiente?
O relatório apresentará soluções que, em primeiro lugar, atendem à necessidade urgente de melhorar os serviços para a população carente em termos de acesso, custo, confiabilidade, saúde e modos de vida; assim, em segundo lugar, evitam um longo período de consumo de energia e emissões de gases de efeito estufa provenientes da infraestrutura. O foco será nas soluções urbanas de energia que podem ser amplamente implementadas dentro da própria cidade. O objetivo é informar os agentes da mudança – um amplo grupo de representantes de governos nacionais e regionais, instituições financeiras internacionais, sociedade civil e setor privado – sobre as áreas de ação críticas nesse sentido.
Enquanto a comunidade internacional estiver focada na implementação da Nova Agenda Urbana depois de Quito, a energia nas cidades deve ser uma prioridade. Fornecer energia limpa, de baixo custo e confiável em áreas urbanas, principalmente nas regiões que estão sendo rapidamente desenvolvidas, também é indispensável para alcançar um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que assegura um acesso de energia moderno para todos, e criar cidades que sejam inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis. Essa é uma oportunidade inspiradora para criar uma nova cidade, em que todos têm acesso à energia para alimentar suas vidas e prosperar.
