O transporte ativo à frente da transformação das cidades, da economia e da mobilidade
Plaza de Armas, uma das áreas requalificadas no centro de Santiago para promover a mobilidade ativa (Foto: Greg Poulos/Flickr)
As cidades, a economia e a mobilidade urbana estão em transformação na América Latina, e à frente dessa mudança está a mobilidade ativa. Investir em infraestrutura para os meios de transporte ativo (bicicleta e caminhada) pode gerar empregos, estimular o comércio e gerar economias substanciais para as cidades. Em janeiro deste ano, um relatório da Federação Europeia de Ciclistas mostrou que o investimento em infraestrutura cicloviária gera 513 bilhões de euros por ano aos 28 Estados-membros da União Europeia. Embora em muitos países europeus tanto esse entendimento quanto as medidas de estímulo e priorização da mobilidade ativa estejam mais difundidos, no Brasil – como nos países latino-americanos em geral – muitas cidades ainda vivem o processo de convencimento, de gestores e comerciantes, de que oferecer infraestrutura para os meios de transporte ativo e priorizar esses modos pode beneficiar amplamente o comércio.

“A mobilidade é uma experiência, uma necessidade cotidiana que faz parte da vida das pessoas para muito além do simples ato de se deslocar. Está ligada à atividade econômica, à saúde, ao acesso às oportunidades, à qualidade de vida – é uma questão de equidade urbana”, avaliou Carolina Tohá (à esquerda), ex-prefeita de Santiago (Chile), que participou nessa segunda (18) do Seminário “Economia, comércio e mobilidade ativa: passo a passo para uma cidade dinâmica”. O evento foi organizado pela Iniciativa Bloomberg para a Segurança Viária Global com o objetivo de mostrar como o investimento em mobilidade ativa – seja pela melhoria de calçadas para os pedestres, seja pela ampliação de infraestrutura em centros comerciais ou criação de calçadões – pode beneficiar os negócios.
Ao longo do último ano, a capital chilena fez uma série de mudanças para qualificar o espaço urbano e investiu em melhorias de calçadas, infraestrutura cicloviária e qualificação do transporte coletivo. Como resultado, foi a vencedora do Sustainable Transport Award 2017, prêmio oferecido às cidades que se destacam na promoção do transporte sustentável. A Rua Aillavilú, no mercado central da cidade, deixou de ser uma área não regulada de estacionamento para se transformar em um amplo espaço para pedestres.
Santiago criou novas áreas verdes, repavimentou ruas, melhorou a iluminação pública, revitalizou áreas abandonadas e redesenhou as principais vias do Centro Histórico da cidade a partir do conceito de Ruas Completas, garantindo mais espaço aos pedestres e ao transporte coletivo. Com a priorização dos ônibus, o tempo de viagem caiu pela metade. As calçadas mais amplas levaram a um aumento de 20% a 30% nas vendas, reduziram os níveis de ruído e criaram um ambiente mais confortável para a circulação das pessoas. O investimento em infraestrutura cicloviária também levou a um aumento significativo no uso da bicicleta: de 150 a mais de 5 mil viagens por dia.
O Plan Centro, como explicou Carolina, foi uma intervenção no coração de Santiago: “Mudamos o perfil das vias no centro da cidade para transformá-las em lugares em que todos tivessem espaço para circular com segurança. Isso implicou reduzir o espaço dos carros e aumentá-lo para pedestres e transporte coletivo. Em paralelo, também conduzimos um amplo programa de estímulo ao uso da bicicleta, com investimento em infraestrutura e expansão da rede cicloviária. Inicialmente, como era de se esperar, esse processo gerou resistência. Mas o resultado foi que, depois das mudanças implantadas, era muito difícil que alguém dissesse 'estávamos melhor antes'”.

Moradores na inauguração da nova Rua Aillavilú, na área central de Santiago (foto: Municipalidad de Santiago/Flickr)

Ciclovia em Santiago (foto: Municipalidad de Santiago/Flickr)

Atividades lúdicas na capital chilena incentivam o uso da bicicleta para as crianças (foto: ITDP/Divulgação)
Em outra ramificação dos benefícios da mobilidade ativa para o comércio está o uso da bicicleta para fins de serviço. No Rio de Janeiro, conforme contou Gabriela Binatti, da Transporte Ativo, o uso das bicicletas na realização de entregas pode ser considerado quase natural: “Fizemos uma pesquisa para entender a motivação dos comerciantes ao elegerem a bicicleta como meio de transporte para as entregas, e o principal motivo apontado foi a agilidade”. Ou seja: qualificar a infraestrutura para uma escolha que já é feita naturalmente pelas pessoas significa garantir as condições de que necessitam para exercer essa escolha com segurança.

Os ganhos sociais e econômicos que vêm com o aumento do uso dos modos sustentáveis deixam marcas na cidade e na economia – desde a criação de empregos, passando por vias mais seguras, uma divisão mais igualitária do espaço e o ar mais limpo. Soma-se a esses o que talvez seja um dos efeitos mais significativos do uso da bicicleta em detrimento do carro: o ganho de tempo. Da mesma forma que Santiago, a Cidade do México também tem investido na ampliação da infraestrutura cicloviária e na qualificação dos espaços urbanos a fim de garantir segurança e acessibilidade para os deslocamentos a pé. Como consequência, entre 2008 e 2016, o uso da bicicleta na capital mexicana registrou um aumento de nada menos que 500%. “E o resultado é que as pessoas deixaram de perder tempo no trânsito: todos os deslocamentos já realizados até hoje só nas bicicletas compartilhadas da cidade equivalem a uma economia de tempo de 95 anos”, destacou Ivan de la Lanza (à direita), gerente de Mobilidade Ativa do WRI México.
Aos poucos, cada vez mais bons exemplos passam a ser vistos na América Latina. O investimento na mobilidade ativa e nos meios sustentáveis também tem ajudado a transformar a realidade de Bogotá. Foi o que contou Juan Miguel Velásquez, especialista em Transportes do Banco Mundial. A capital colombiana conseguiu reduzir pela metade o número de mortes no trânsito nos últimos vinte anos e, com uma rede de 392 quilômetros de ciclovias, é hoje a cidade latino-americana com o maior número de viagens diárias de bicicleta – 600 mil.

Via aberta para as pessoas em Bogotá (Foto: Cidade para Pessoas/Flickr)
A mudança começa na legislação
As diferentes experiências do contexto latino-americano mostram que, para passar do discurso à prática, são necessários comprometimento do poder público, planejamento e diálogo constante entre as partes envolvidas. Todas essas etapas podem ser atendidas com mudanças na legislação urbana – em particular, no Plano Diretor, que é o principal instrumento de planejamento das cidades.
Durante o processo de revisão do Plano Diretor Estratégico, como explicou o vereador José Police Neto, foram feitas modificações nas diretrizes com o objetivo de tornar São Paulo uma cidade que dialogue mais com o piso térreo, com as calçadas, com os pedestres. “Procuramos entender a engrenagem que criou uma cidade carrocêntrica para então fazer as mudanças necessárias para reverter esse cenário. O objetivo é fazer de São Paulo uma cidade aberta, uma cidade de encontros”, comentou.
Para que a cidade, assim como as pessoas que vivem nela, possam usufruir dos benefícios sociais e econômicos da mobilidade ativa apontados aqui, cabe às gestões municipais garantir que pedestres e ciclistas sejam priorizados na organização da mobilidade. Entre outros fatores, isso depende da qualificação da infraestrutura e da distribuição equilibrada do espaço viário – os quais, por sua vez, estão atrelados à legislação urbana, “que incide diretamente sobre nossos padrões de locomoção no ambiente urbano. Nós mantemos um modelo de desenvolvimento que vigora desde o pós-guerra. Está na hora de mudar esse paradigma e, para isso, é preciso mudar a legislação”, ressaltou Victor Andrade, coordenador do LabMob.
Se o objetivo é criar uma cidade para todos, esta cidade não pode ser feita sem todos. Mais do que isso, não pode ser planejada somente para uma parte desse grupo. O secretário Municipal de Mobilidade e Transporte de São Paulo, Sérgio Avelleda (abaixo), reconhece que esse é um desafio para a capital paulista: “É difícil pensar fora de um modelo consolidado há um século, romper o mundo da mobilidade pelo automóvel é difícil e incomoda – mas esse modelo vem mostrando sinais de esgotamento. O desafio é romper essa lógica. Precisamos entender que a mobilidade ativa traz benefícios para o comércio e a economia e, ao mesmo tempo, garante mais qualidade de vida para a cidade e as pessoas”.

Sergio Avelleda (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil)

Cerca de 80 pessoas acompanharam os debates do seminário (Foto: Mariana Gil/Flickr)
