Iniciativas globais colocam o setor de transportes no trilho certo para combater as mudanças climáticas?
Neste domingo (13) ocorreu o Transport Day na COP22, em que serão destacadas as importantes contribuições que o setor de transporte pode dar para reduzir as emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE). Nos últimos dois anos, a Agenda de Ação Lima-Paris (AALP), como parte da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês), encorajou vários atores não-governamentais (setor privado, cidades, ONGs etc) a desenvolver iniciativas ambiciosas de redução de emissões. Para o setor de transportes, 15 iniciativas foram registradas até aqui, e elas foram reunidas no Processo de Paris sobre a Mobilidade e Clima (PPMC).
Se o Acordo de Paris demonstra o desejo por uma ação climática global, questões importantes permanecem sobre a ambição e a implementação. Essas questões são: iniciativas globais colocam o setor de transportes no trilho certo para combater as mudanças climáticas? O que está faltando? Esse é o centro das discussões durante a COP22. Um novo estudo do WRI Ross Center for Sustainable Cities, entitulado Can Transport Deliver GHG Reductions at Scale? An Analysis of Global Transport Initiatives (O Transporte Pode Entregar Uma Redução em Escala dos GEE? Uma Análise das Iniciativas Globais de Transporte, em tradução livre), mostra sete iniciativas de transporte, o seu potencial de redução de emissões, os seus cursos e ambições. O estudo revela que as iniciativas são de fato ambiciosas e poderiam levar a uma redução de 3,7% na redução global de emissões relacionadas a energia até 2050.
Além desse estudo, os pesquisadores analisaram formas quantitativas de avaliar o potencial das 15 iniciativas. Os critérios incluem: cobertura de iniciativas, transparência e clareza das metas, ss principais organizações e participantes e a sua capacidade institucional.
O escopo e a cobertura das iniciativas de transporte na AALP
Para entender o escopo total, os pesquisadores categorizaram cada iniciativa pelo seu foco principal e se ela se encaixa na estrutura “adaptar, planejar, evitar, mudar e melhorar”. O estudo mostra que as iniciativas de transporte atuais na ALLP tem um foco claro em medidas para “melhorar”, em detrimento de iniciativas para “evitar” e “mudar”, o que significa que há maior foco em avanço da tecnologia em vez de mudanças de comportamentos ou estilo de vida. Reduzir o consumo de energia dos veículos é importante, mas o uso de outros modos e a redução da demanda de viagens pode ter melhor custo-benefício. Além do mais, será importante considerar como essas iniciativas vão impactar outras áreas como poluição do ar e acesso a bens e serviços. Também será importante avaliar se essas iniciativas atendem as necessidades de todas as regiões globais.

Tabela por categoria das iniciativas de transporte na AALP (Gráfico: WRI)
Transparência das iniciativas e clareza das metas
Parte central da discussão durante a COP22 estão dois imperativos para limitar o aumento da temperatura em 1,5°C – ou 2°C no máximo. Primeiro, a necessidade de primeiro implementar as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC’s na sigla em inglês). Segundo, o nível de ambição precisa aumentar, pois os compromissos atuais não são suficientes.
Transparência de ação, planos e clareza das metas de iniciativa são cruciais por diversas razões. Primeiro, iniciativas globais vão entregar os seus objetivos apenas se estiver integradas e bem embasadas por planos de governo, políticas e regulação e ações de companhias privadas. Segundo, para ser efetivas, essas iniciativas precisam trabalhar junto a outros esforços climáticos para além do setor de transportes. Terceiro, espera-se que iniciativas da AALP possam dar mais confiança ao movimento por um mundo com respeito ao clima, ajudando a comunidade internacional a entender o potencial das iniciativas, medir o progresso e agir nas principais propostas.
Todas as iniciativas tem informações disponíveis, muitos com sites próprios. Algumas, como a Global Fuel Economy Initiative, publicam relatórios regularmente. Em geral, os objetivos e as intenções das ações são claras; de qualquer forma, as informações disponíveis sobre como atingir isso variam nos planos de ação
Enquanto organizações internacionais desenvolvem os objetivos, não é claro até que ponto as metas refletem diferentes regiões do mundo; não é realista que cada iniciativa é universalmente plausível ou necessária. Por exemplo, alguns países estão muito bem posicionados para adotar veículos elétricos, enquanto outros podem se beneficiar mais de um aumento no transporte público. Traduzindo estas iniciativas para as metas regionais ou do país vai ajudar as cidades a priorizar seus esforços.
Além disso, conectar-se com níveis de governo e tomadores de decisão certos será importante para alcançar estes objetivos. Planos de transporte, de bicicletas e iniciativas de transporte público exigirão dedicação das cidades e dos governos regionais, e muitas iniciativas de novos veículos vão precisar de incentivo e suporte de infraestrutura dos governos nacionais.

Impacto, custo e nível de esforço para iniciaticas individuais. Tamanho das bolhas também indicam nível de esforço (Gráfico: WRI)
Boas iniciativas levam a grandes pontenciais impactos
Boas iniciativas podem criar um movimento forte para torna-las realidade. O estudo do WRI mostra que o maior esforço e a maior redução em emissões viria da troca de modo de transporte, seja por trilhos ou transporte público. Enquanto essas iniciativas podem ser as mais impactantes individualmente, existem muitas sinergias entre as iniciativas que poderiam ser mais exploradas. Por exemplo, se a troca de modos de transporte ocorre com sucesso, torna-se mais fácil e menos oneroso atingir metas de eficiência ou de eletrificação da frota de veículos, porque vai reduzir o número total de veículos necessários. Além disso, ligando eletrificação de veículos à eletricidade de baixo carbono é fundamental para a redução total de emissões.
Uma oportunidade importante se for feita corretamente
Historicamente, quando se fala de mudanças climáticas, o setor de transportes tem sido considerado parte do problema sem muita discussão sobre como isso pode ser parte da solução – a COP21 mudou isso. Agora, a COP22 precisa colocar essa nova visão do setor dos transportes em movimento.
A COP22 será fundamental para intensificar as ações, bem como envolver o setor privado, governos e sociedade civil para colaborar melhor, acelerar a ambição e transformar o setor de transportes. Iniciativas de transporte atualmente na AALP são um enorme passo adiante; precisamos comemorar esse progresso. No entanto, também temos de reconhecer que ainda há trabalho a ser feito para alcançar os objetivos da COP22 e trazer o Acordo de Paris para a realidade: mobilizar iniciativas globais adicionais para alcançar uma redução significativa de gases do efeito estufa; esclarecer o roteiro de ação para iniciativas existentes; e articular as potenciais sinergias entre as iniciativas de transporte existentes e as muitas outras iniciativas globais.
Este artigo foi escrito por Benoit Lefevre, Erin Cooper e Xiangyi Li e publicado no TheCityFix.
