Fortaleza reúne especialistas para pensar em soluções de desenho urbano
No passado, as cidades eram construídas para atender ao crescente número e fluxo de veículos. Investimentos eram voltados para a construção de rodovias e ruas que permitissem maiores velocidades e mais carros. No entanto, atualmente, as cidades precisam mudar o modo de enxergar os meios de transporte e começar a alterar a infraestrutura já existente com o objetivo de se tornarem mais sustentáveis e acessíveis.
Hoje, Fortaleza é uma cidade em transformação. A forte ampliação da malha cicloviária e a adoção de locais de velocidade reduzida para os veículos já mostram bons resultados. No entanto, muitos desafios são encontrados nesse processo. Para debruçar-se sobre alguns deles, o WRI Brasil Cidades Sustentáveis, com o apoio da Prefeitura de Fortaleza e inserido nas atividades da Iniciativa Global em Segurança Viária da Bloomberg Philanthropies, organizou o evento Workshop de Desenho Seguro de acordo com o Limite de Velocidade, realizado nesta terça-feira.
O Secretário Executivo de Fortaleza, Luiz Alberto Sabóia, abriu o evento para falar dos esforços feitos pela prefeitura na construção de uma cidade com mais espaço para os pedestres e ciclistas e prioridade ao transporte coletivo. “Esse é um desafio muito grande. Se fossem apenas intervenções, obras de infraestrutura, talvez fosse mais fácil. Mas depende também de um elemento fundamental que é a mudança na forma como as pessoas veem segurança viária. É através da mudança de desenho da cidade que induzimos essa mudança na forma de pensar”, destacou.
Secretário Executivo de Fortaleza, Luiz Alberto Sabóia (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Saboia também coordena o Plano de Ações Imediatas em Trânsito e Transporte de Fortaleza, programa que exerceu grande influência na seleção da cidade para integrar a Iniciativa Global em Segurança Viária da Bloomberg Philanthropies, um compromisso para reduzir fatalidades e feridos no trânsito. Ao todo, dez cidades de todo o mundo são beneficiadas - entre elas também foi incluída São Paulo. Ao longo de cinco anos, a iniciativa vai investir 125 milhões de dólares no suporte técnico a implementação de intervenções urbanas capazes de salvar vidas nas cidades. “Começo a ver as transformações que ocorrem hoje em Fortaleza através dos elementos que estamos implantando no desenho urbano. Me refiro às faixas de ônibus, às ciclofaixas, às travessias elevadas, às faixas em X. Esses elementos começam a gerar uma mudança na forma coletiva de pensar na cidade", disse o secretário.
A Gerente de Mobilidade Urbana do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, Brenda Medeiros, falou do trabalho da organização e apresentou números que comprovam a urgência em reduzir o número de carros nas ruas para, de um modo geral, oferecer segurança aos habitantes. Acidentes de trânsito são uma das principais causas de morte no mundo, vitimando 1,25 milhão de pessoas por ano, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). O limite de velocidade recomendado pelo órgão para vias urbanas é de até 50 km/h. Em áreas com grande movimentação de pedestres e ciclistas, a recomendação para o limite máximo de velocidade é ainda menor, de 30 km/h. Em muitas cidades do Brasil e do mundo o limite de velocidade adotado ainda é superior a essas recomendações.
(Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Medidas de redução de velocidade na capital cearense já geraram números animadores. Em três vias da cidade em que o limite de velocidade passou a ser de 40 km/h, a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) registrou uma queda no número de acidentes. Foram contabilizados 20% menos ocorrências na Avenida Engenheiro Santana Júnior, 28% na Avenida Beira Mar e 36% na Avenida Monsenhor Tabosa. Segundo o órgão, a fiscalização começou em setembro de 2015. “Algumas medidas, por mais que elas pareçam difíceis em um primeiro momento, por serem baseadas em dados, em boas experiências, trazem grande retorno”, enfatizou Brenda.
O holandês Arie Vijfhuizen, da Royal HaskoningDHV, consultoria internacional de engenharia e gerenciamento de projetos presente em 150 países, esteve no evento para apresentar projetos e ideias do país europeu. “Nós nem sempre fomos a nação da bicicleta. Também priorizávamos os carros e tínhamos muitas fatalidades no trânsito. Andar de bicicleta também era perigoso. Mas, de 25 anos para cá, mudamos a nossa forma de pensar a mobilidade”, relatou.
Arie Vijfhuizen, holandês consultor da Royal HaskoningDHV. (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
O engenheiro, com mais de 19 anos de experiência em desenho e integração de projetos no meio urbano e rural, contou aos participantes como foi o processo de transformação do país e como é o cenário atual: "Deixamos de pensar em mobilidade para carros, e passamos a pensar em mobilidade para pessoas. Hoje, nosso problema é a quantidade de ciclistas. Precisamos acomodar todos. Para isso, nosso próximo passo é proibir a circulação de carros nas regiões centrais da cidade”.
Fortaleza também apresenta números crescentes em quilômetros de ciclovias. A prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura (SEINF), desenvolveu o Plano Diretor Cicloviário Integrado, com o objetivo de atender às políticas de mobilidade, de desenvolvimento urbano e de proteção ao ambiente. Até 2012, Fortaleza possuía apenas 73 quilômetros de infraestrutura cicloviária. Atualmente, a cidade conta com um total de 150 quilômetros. A cidade prevê chegar ao final de 2016 com cerca de 216 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas. “Fortaleza está caminhando muito bem na questão de criar uma rede, de conectar pontos. É assim que as pessoas vão se sentir confortáveis ao usar uma ciclovia como transporte e não só como lazer”, exaltou Brenda. Também estavam presentes no evento as Especialistas em Segurança Viária Shanna Trichês Lucchesi e Rafaela Machado.
Arie Vijfhuizen e a sueca Charlotte Berglund em atividade prática durante o workshop. (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Para iniciar a parte prática do workshop, o técnico do PAITT, Gustavo Pinheiro, apresentou alguns estudos feitos pelo programa para o uso de bicicletas. “Temos muitas ciclofaixas para fazer até o fim do ano”, comentou ele, a respeito da meta de 216 quilômetros. Gustavo apresentou um dos estudos de caso no qual os técnicos passaram a tarde trabalhando. As quase 50 pessoas presentes no evento foram divididas em grupos para se debruçar sobre mapas da região que abrangem trechos da Avenida Domingos Olímpio, onde serão instaladas ciclovias. O trânsito de carros e ônibus na região é intenso e o local é rota de centenas de ciclistas por dia. No final do dia, os grupos apresentaram suas sugestões, que foram debatidas por todos os outros participantes. O objetivo do trabalho não foi concluir o projeto, mas debater e dividir ideias na busca de soluções para os gargalos e locais com maiores dificuldades.
Nessa quarta-feira (27), durante o segundo dia de evento, mais uma região será trabalhada pelos técnicos. Além disso, a sueca Charlotte Berglund, engenheira civil da SWECO - uma das maiores consultorias da Europa nas áreas de construção, arquitetura, engenharia e ambiente -, apresentará algumas das experiências que viveu ao longo de 20 anos trabalhando nas áreas de planejamento de trânsito e transportes, e planejamento urbano e regional. Na quinta-feira (28), São Paulo também recebe o evento, que da mesma forma contará com os especialistas internacionais, técnicos da cidade e a equipe do WRI Brasil Cidades Sustentáveis para debater o desenho de vias urbanas.