Estudo indica que iniciativas de transporte da Agenda de Ação Lima-Paris podem reduzir 3,7% das emissões globais
Este texto foi originalmente publicado no site do WRI Ross Center for Sustainable Cities.
A Agenda de Ação Lima-Paris (LPAA), no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), reúne uma variedade de iniciativas pelo combate e mitigação de emissões de gases de efeito estufa em todos os setores. As iniciativas do setor de transportes, também apoiadas pelo Processo de Paris sobre Mobilidade e Clima, têm como objetivo incentivar o uso do transporte coletivo e da bicicleta, garantir maior eficiência de combustível para os veículos comerciais e aumentar a utilização dos carros e ônibus elétricos. Até o momento, há pouca informação sobre os potenciais custos e benefícios de todas essas iniciativas juntas. No entanto, um novo estudo do WRI Ross Ross Center for Sustainable Cities, intitulado "O transporte pode levar a uma redução significativa das emissões dos gases de efeito estufa? Uma análise das Iniciativas Globais de Transporte" (em inglês, Can Transport Deliver GHG reductions at scale? An analysis of Global Transport Initiatives), tenta preencher essa lacuna e ajuda esclarecer sete das iniciativas de transportes em termos de emissões, custos e ambição.
O trabalho conclui que as iniciativas são ambiciosas e levariam a uma redução de 3,7% das emissões globais relacionadas à energia até 2050. Ainda que a contribuição não seja tão significativa quanto a de alguns setores-chave (como o de energia renovável), esse número representa cerca de 10% da redução necessária até 2050 para garantir que o aumento da temperatura média global não passe de 2°C nas próximas décadas. As reduções mais significativas resultam de uma mudança nos modos de deslocamento, em grande parte da troca do carro particular para o transporte coletivo. Além disso, o estudo constata que, juntas, todas as iniciativas podem ajudar a reduzir as emissões, já que sua interconectividade tem um potencial além do que qualquer esforço deste tipo poderia ter por conta própria.
Para acessar o estudo na íntegra, clique aqui.
Contexto global das iniciativas de transporte
O setor dos transportes foi responsável por quase um quarto das emissões globais de dióxido de carbono relacionadas à energia em 2011, com uma tendência ainda crescente devido ao rápido aumento da motorização. A fim de combater essa tendência, a LPAA oferece uma plataforma para incentivar vários atores estatais e não-estatais a desenvolver iniciativas ambiciosas de redução de emissões. As ações são voluntárias e visam a acelerar esforços em torno da redução de emissões. A plataforma LPAA é uma oportunidade para garantir mais visibilidade para iniciativas e ajudar a ampliar seus esforços.
O principal objetivo da maioria delas é reduzir as emissões de gases de efeito estufa ao focar em tecnologia e mudanças de comportamento. No entanto, dado que as metas foram desenvolvidas por muitas organizações diferentes, pode ser difícil compreender o potencial impacto de cada iniciativa em relação às outras ou como um todo. Por essa razão, o WRI, com base em seu trabalho anterior com a Global Calculator, comprometeu-se neste estudo a fornecer um contexto global de redução de emissões. Através da análise, o documento contribui com a discussão das sete iniciativas: são viáveis? Seus altos níveis de ambição são necessários? Existem lacunas ou sobreposições significativas? Existem interações que podem ser alavancadas?
Amplo potencial de redução de emissões, mas muito esforço necessário
Os resultados mostram que a maior redução de emissões poderia vir da mudança no modo escolhido - de carros para os modos de transporte ferroviários e/ou coletivos -, mas que essa mudança exigiria um alto nível de esforço, devido às também necessárias mudanças de comportamento das pessoas em meio à tendência carrocêntrica em que vivemos. Se alcançadas, porém, ambas as iniciativas - de transporte coletivo e ferroviário - teriam economias significativas de custo, em grande parte devido a uma redução no número de veículos adquiridos. Além dos modos de transporte, as metas para os veículos elétricos também são ambiciosas e têm benefícios significativos de diminuição das emissões. A eficiência de combustíveis dos veículos rápidos, por exemplo, tem um elevado potencial de mitigação (0,67%), e as iniciativas de eficiência em relação às viagens aéreas também apresentam grandes potenciais de redução das emissões (0,1%), considerando o tamanho de cada setor.
A redução indicada pelo estudo, de 3,7% das emissões globais relacionadas à energia até 2050, é menor do que a soma da redução de cada programa individualmente, já que algumas das iniciativas têm objetivos que se sobrepõem. Mudanças na demanda, modo de transporte e tecnologia podem impactar ainda mais os resultados do estudo. Além disso, o nível de esforço necessário para alcançar cada iniciativa depende do esforço feito em outras áreas. Por exemplo, se a mudança na forma de deslocamento for bem-sucedida, torna-se mais fácil e menos oneroso atingir metas na eficiência dos veículos ou na eletrificação da frota porque iria reduzir o número total de veículos necessários. Para além desas iniciativas, uma maior redução das emissões do setor de transportes é possível também a partir de esforços na eficiência dos veículos pesados, a demanda de frete e a taxa de ocupação de veículos de passageiros.
No geral, a redução de 3,7% das emissões globais deste setor representa 15% das emissões relacionadas com os transportes e 10% da redução de emissões necessária até 2050. O estdo mostra que, se alguns esforços ambiciosos já podem levar uma queda significativa nas emissões, a dedicação a diversas iniciativas no setor pode ser ainda mais eficaz.
Iniciativas conectadas e transparentes podem atingir metas possíveis
Compreender as amobições e o impacto dessas iniciativas ajuda a orientar tanto o foco quanto os investimentos na transformação desses objetivos em realidade. A análise mostra que se, por um lado, as iniciativas abrangem muitos aspectos importantes para reduzir as emissões no setor de transportes, as metas ainda não estão definidas para todas as oportunidades. A pesquisa demonstra como a clareza das metas ajuda a compreender o verdadeiro potencial das iniciativas e a avaliar se são ou não viáveis. Esse nível de transparência é importante para suscitar a confiança de que os objetivos são atingíveis, criando, assim, uma mudança no mercado.
Indo adiante, é necessário identificar tanto as ligações existentes entre os vários esforços quanto as políticas complementares que podem ser adotadas. Geralmente, as iniciativas de transporte são conectadas a cidades e organizações em escala mundial. No entanto, ainda será importante estabelecer as conexões certas entre os diferentes níveis de governo e do setor privado, assim como criar o acesso ao financiamento e planejamento para transformar essas iniciativas em realidade.
Na medida em que as negociações da COP 22, entre os dias 7 e 18 de novembro, e mais recentemente da Habitat III, visam moldar a agenda para o desenvolvimento futuro, é importante conectar setores, ajudar a moldar o processo de criação das iniciativas para apoiar metas realistas, mas ambiciosas, e identificar todas as potenciais áreas de ação. O WRI está presente em projetos de cooperação que promovem a Ação Global do Clima e no engajamento dos stakeholders no processo da LPAA. Além disso, a organização contribuiu fortemente para a agenda da Habitat III, trabalhando com os principais negociadores e, daqui para frente, incidirá sobre a mobilização de implementação da Nova Agenda Urbana.
