Especialistas internacionais trabalham em desenhos urbanos mais seguros para Fortaleza e São Paulo
Quando pensamos em desenho urbano, incluir calçadas maiores, redirecionar o tráfego, diminuir a largura das pistas, reduzir os limites de velocidade e criar melhor iluminação são algumas das medidas que podem ser chaves para o desenvolvimento de cidades melhores. Medidas de redesenho urbano foram debatidas nas Oficinas de Desenho Seguro de acordo com o Limite de Velocidade, realizadas nas cidades de Fortaleza e São Paulo nesta semana. Os eventos foram organizados pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis, com o apoio de ambas as prefeituras, e inseridos nas atividades da Iniciativa Global em Segurança Viária da Bloomberg Philanthropies.
Nos quatro dias de eventos, os especialistas internacionais Arie Vijfhuizen e Charlotte Berglund participaram das atividades, apresentando projetos de seus países e debatendo ideias de desenho com os presentes nos workshops. Arie Vijfhuizen é holandês, consultor e engenheiro civil com mais de 19 anos de experiência em desenho e integração de projetos no meio urbano e rural. Atualmente, é consultor da Royal HaskoningDHV, uma consultoria internacional de engenharia e gerenciamento de projetos composta por 6500 profissionais em 150 países. A sueca Charlotte Berglund possui 20 anos de extensiva experiência em planejamento de trânsito e transportes, assim como em planejamento urbano e regional. Atualmente trabalha na SWECO, uma das maiores consultorias da Europa, que trabalha nas áreas de construção, arquitetura, engenharia e meio ambiente. Entrevistamos ambos para saber como foi a experiência no Brasil durante os workshops em Fortaleza e São Paulo e quais as principais diferenças de realidade em relação aos seus países de origem.
Arie e Charlotte apresentaram ideias de desenhos durante os estudos de caso. (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Arie Viijfhuizen
Como você avalia os trabalhos que estão sendo feitos em segurança viária no no Brasil?
Acho que os brasileiros estão fazendo um bom trabalho, vejo muitas melhorias acontecendo. No trabalho de ontem, tivemos um público muito interessante, que quer realmente implantar melhorias e fazer diferente ao invés de repetir o mesmo que vem sendo feito.
Os problemas que temos hoje no Brasil são os mesmos que vocês tinham na Holanda no passado?
Sim, em escalas diferentes, mas os mesmos problemas que tínhamos nos anos 1980 e 1990. Muitos desafios a serem percebidos e encarados. O que precisamos são pessoas que querem mudanças, que querem evoluir, implantar um novo desenho nas vias.
Quais são os primeiros passos que as cidades precisam tomar para a formação de ambientes mais seguros?
Plantar uma árvore para colher seus frutos. Assim deve ser o primeiro passo. Começar em áreas urbanas, que já estão habitadas, começar a fazer delas lugares mais seguros. Dessa maneira, o local começará a permitir áreas para bicicletas, para transporte coletivo e vários outros meios de transporte. Essa é a maneira mais fácil, começar colhendo os pequenos frutos para depois colher maiores. Começar em pequenas áreas e ir aos poucos para as grandes áreas.
Qual a melhor maneira de comunicar às pessoas essas mudanças para que elas comecem a valorizar a segurança nas vias?
Se as pessoas não pensarem em segurança agora, o ambiente vai permanecer inseguro. Quando as autoridades municipais começam a promover melhorias, talvez instalando mais iluminação, colocando câmeras, mais policiamento, as pessoas começarão a andar mais nas ruas, a usar mais o espaço urbano, e isso vai tornando as ruas mais seguras. Quanto mais pessoas circulando, menos problemas vão acontecer. Os cidadãos começam a experimentar e a aceitar os desafios depois de ver as melhorias que foram implementadas.
Como acredita que o problema da judicialidade pode ser solucionado? Como as novas medidas podem conviver com tantas ações judiciais?
Comunicação é a ferramenta mais importante nessas questões. As leis existem, mas elas podem mudar, podem desaparecer. Às vezes, novas leis são necessárias, já que estamos construindo novas cidades mais seguras. Precisamos comunicar ao público. Os políticos necessitam ver as mudanças nas ruas, precisam sentir as transformações onde as pessoas vivem e a transformação nas próprias pessoas. Se eles realmente enxergarem isso, experimentarem as mudanças, eles podem mudar leis para deixar as cidades mais seguras.
Charlotte Berglung
Como a Suécia começou a pensar em priorizar as pessoas? Como tudo começou a mudar em termos de desenho urbano?
Acredito que tudo tenha começado quando as pessoas deixaram de aceitar que tantas outras estivessem morrendo nas ruas. Havia também um grande custo com pessoas que haviam sofrido acidentes e precisavam de auxílio. Então, as autoridades começaram a se perguntar como poderiam mudar aquele cenário. Eles tentaram apenas reduzir os limites de velocidade, mas é claro que apenas aquilo não adiantou. Apenas colocar placas não fez a população obedecer as mudanças. As alterações de desenho urbano surgiram como uma solução, já que elas são auto-explicativas e mais fáceis de entender.
Existem muitas diferenças de desenho urbano ou tecnologias na Suécia que não temos ainda aqui?
Existe uma grande diferença nos cenários urbanos, sim. Aqui, as áreas de pedestres são muito estreitas, há muito mais espaço para os carros, assim como era na Suécia anos atrás. Mas aqui eles sabem como fazer, têm o mesmo conhecimento que nós, porém leva tempo para implementar esses desenhos.
A sueca Charlotte Berglund. (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Quais são os principais desafios nas cidades brasileiras em termos de segurança viária?
Provavelmente são as questões políticas. Autoridades precisam realmente assumir compromissos, pois muitas mudanças tornam-se difíceis e as decisões não são fáceis. Pessoas irão reclamar sobre reduções de velocidade, irão fazer bastante barulho, mas eles precisam entender que é necessário. Essa realidade de trafegar em alta velocidade e parar, andar novamente em alta velocidade e parar, não é um bom fluxo. Eles irão acostumar-se quando forem em uma velocidade mais baixa, mas sempre continuamente.
Qual a importância da comunicação nesse contexto?
É muito importante ter uma mídia que entende o que está acontecendo. Envolver a mídia nesse processo de transformação é uma boa maneira de educar as pessoas, de dizer a elas o porquê das mudanças, onde cada um pode contribuir.
Como foi essa troca de ideias com os participantes das oficinas de São Paulo e Fortaleza?
Acho que esse é um ótimo trabalho. É muito importante envolver pessoas de diferentes áreas e departamentos, que naturalmente não trabalham juntas, para trocar ideias e passarem a entender uns aos outros. Pessoas têm diferentes ideias em diferentes áreas, mas podem compartilhar todo esse conhecimento. Assim como eu e o Arie estávamos aqui nesta semana, eles puderam nos questionar se achávamos que eram boas ideias, para trazer experiências e influências de outros lugares.