Especialistas debatem formas de tornar o trânsito de São Paulo mais seguro a partir do desenho urbano
Cidades prósperas não têm apenas estatísticas econômicas positivas. Também apresentam características observáveis nos seus cenários urbanos como a expansão de sistemas multimodais de transporte e elementos nas vias que indicam a priorização de espaços para pedestres e ciclistas, criando uma rede urbana sustentável. Ao promover essas interações saudáveis, as cidades geram melhor qualidade de vida e produtividade, elementos fundamentais para o seu crescimento. No entanto, muitos desafios de transporte surgem na construção desses espaços, já que muito precisa ser reformulado ou, ainda melhor, redesenhado.

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
A Oficina de Desenho Seguro de acordo com Limites de Velocidade, que ocorre nesta quinta-feira (28), em São Paulo, reuniu especialistas na área de segurança viária para debater o assunto. Na abertura do evento realizado no MobiLab, uma mesa redonda contou com a participação do Diretor do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, Luis Antonio Lindau, do consultor em planejamento, projetos e ciclovias da Royal HaskoningDHV, Arie Viifhuizen, da consultora em segurança viária e planejamento de transportes da SWECO, Charlotte Berglund, do Superintendente de Planejamento e Projetos da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Ronaldo Tonobohn, e da Coordenadora de Segurança Viária da LabTrans-UFSC, Camila Belleza. Diversos assuntos foram levantados pelo grupo, como os desafios enfrentados pelas cidades que passam por transformações viárias, relação com a mídia, ocupação do espaço, dificuldades de implementação de novas ações nas vias, motocicletas, entre outros.
Abaixo, veja alguns comentários dos participantes da mesa:
Luiz Antonio Lindau: "Um dia vão falar em como as cidades eram feitas para carros, como os automóveis eram priorizados e não as pessoas. Estamos caminhando para isso (priorizar as pessoas), mas infelizmente ainda vai demorar para ocorrer essa inversão".
Charlotte Berglund: "A primeira ação é promover a transformação na visão das pessoas para que elas desejem vias mais seguras. Mostrar que ‘não precisa ser dessa maneira’, não precisam acontecer acidentes".
Arie Viifhuizen: "Mudamos as leis. Na Holanda, em um acidente envolvendo automóvel e ciclista, o motorista é sempre o culpado. Não importa de quem é a culpa. Essa determinação fez grande diferença".
Da direita para a esquerda: Ronaldo Tonobohn, Camila Belleza, Luis Antonio Lindau, Charlotte Berglund e Arie Viifhuizen (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Ronaldo Tonobohn, ao comentar a reação às medidas de redução dos limites de velocidade em São Paulo: "Quando falamos em reduzir velocidades parece que a cidade vai parar. Mas não. A cidade só vai andar diferente, com mais segurança".
Ronaldo Tonobohn, sobre uma análise feita três meses antes da redução de velocidade nas marginais Tietê e Pinheiros e três meses depois da medida: "Um levantamento observado recentemente com equipamentos de monitoramento da frota indicou que o fluxo de carros nas marginais cresceu 40% desde a implantação dos limites de velocidade reduzidos".
Camila Belleza, ao citar dados da Organização Mundial de Saúde: "Hoje, no mundo, 90% das mortes em acidentes de trânsito ocorrem em países de baixa e média renda, que detêm apenas 50% da frota de veículos".
Luiz Antonio Lindau: "Carro não vota, mas é quem mais faz sucesso nas ruas".

Luis Antonio Lindau (à direita), Charlotte Berglund e Arie Viifhuizen (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Arie Viifhuizen, sobre as primeiras medidas tomadas pelas autoridades ao montar o redesenho das cidades visando a priorização de pedestres e ciclistas: "O primeiro passo foi unir todos os planejadores, urbanistas e arquitetos para pensar as cidades. Só assim tudo começou a dar certo".
Ronaldo Tonobohn: "Faz três anos que aprendi a falar a palavra judicialidade. Hoje, 200 projetos de traffic calming estão parados no Judiciário. Cada ação que tentamos implementar vira uma ação judicial".
Charlotte Berglund, ao comentar a situação atual na Suécia: "Atualmente, poucas pessoas conhecem alguém que sofreu um acidente fatal ou que tenha deixado lesões na Suécia".
Arie Viifhuizen, sobre a importância do cuidado com a divulgação da implantação de novas medidas e a importância da relação com os veículos de imprensa: "Cada projeto precisa ser muito bem estudado e pensado. A mídia está sempre lá fazendo questionamentos. Precisamos ter respostas".
Ronaldo Tonobohn, sobre o aproveitamento de espaço no cenário urbano paulista e como soluções como parklets e jardins de chuva – usados para ajudar na drenagem das vias – estão sendo implementadas na cidade: "São Paulo tem espaço viário. O uso dele que é impróprio. São Paulo precisa de espaço para estar".
Charlotte Berglund: "Precisamos de autoridades corajosas o suficiente para mudar medidas e encarar as críticas. Ser corajoso, para começar".
Ronaldo Tonobohn, sobre a capital paulista: "Deixamos de contar veículos e passamos a contar pessoas. Precisamos dessa democratização".
Rafaela Machado, Especialista em Segurança Viária do WRI Brasil Cidades Sustentáveis(Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
São Paulo foi uma das dez cidades escolhidas para integrar a Iniciativa Global em Segurança Viária da Bloomberg Philanthropies, um compromisso para reduzir fatalidades e feridos no trânsito. Ao todo, dez cidades de todo o mundo são beneficiadas - entre elas também foi incluída Fortaleza. Ao longo de cinco anos, a iniciativa vai investir 125 milhões de dólares no suporte técnico para a implementação de intervenções urbanas capazes de salvar vidas nas cidades.
A Especialista em Segurança Viária do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, Rafaela Machado, apresentou as ações do WRI Brasil Cidades Sustentáveis e dados que comprovam a necessidade de se repensar as cidades para promover a segurança das pessoas. “Não podemos nos acostumar aos acidentes e às mortes no trânsito”, exaltou. “São Paulo está de parabéns pelas atitudes corajosas que vêm tomando para salvar vidas.”
Rafaela voltou a falar sobre a problemática do número crescente de motociclistas. Segundo dados apresentados, apenas em 2013, no Brasil, 11.983 motociclistas morreram no trânsito. De 2000 até 2013, o número de acidentes fatais entre motociclistas cresceu 386%. Segundo a OMS, metade de todas as mortes no trânsito no mundo ocorre entre as pessoas menos protegidas – motociclistas (23%), pedestres (22%) e ciclistas (4%). No Brasil, os números são semelhantes – motociclistas (28%), pedestres (20%) e ciclistas (4%). A Especialista em Segurança Viária do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, Shanna Trichês Lucchesi, a Diretora de Relações Estratégicas e Desenvolvimento, Rejane Fernandes, e a consultora representante da Iniciativa Bloomberg, Hannah Machado, também participaram do workshop.
Complexo Viário Jacu-Pêssego
Edison Vianna, gestor de trânsito da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, falou sobre o projeto da Jacu-Pêssego (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
O gestor de trânsito da CET-SP, Edison Vianna, apresentou detalhes sobre o projeto em desenvolvimento que visa a redução de acidentes na Avenida Jacu-Pêssego/Nova Trabalhadores, local que os participantes do workshop puderam trabalhar para pensar ideias e soluções. O complexo é uma importante estrutura viária de São Paulo, que liga transversalmente a zona leste da cidade. A via é dividida em quatro trechos – um deles fora da capital paulista – e foi inaugurada em 1996. Outros trechos foram inaugurados ao longo dos anos até chegar aos atuais 26 quilômetros. Com o passar do tempo, a via, que foi concebida como uma via expressa, sofreu diversas alterações urbanas devido à ocupações desordenadas. Hoje, segundo Vianna, cerca de 80% da Jacu-Pêssego é urbanizada.
Em agosto de 2015, o limite de velocidade permitido na via passou de 70 km/h para 50 km/h. A medida foi tomada devido ao grande número de acidentes na região. Só em 2014, com os 150 acidentes de trânsito registrados na via, 23 pessoas morreram e 221 pessoas ficaram feridas. O Plano Diretor de São Paulo prevê a densificação da macroárea da avenida Jacu-Pêssego com o objetivo de incentivar o desenvolvimento econômico do local, priorizando a circulação de pessoas. “Esse é uma caso claro de uma região que não teve uma urbanização planejada. A construção de habitações irregulares em torno da via modificou completamente o uso dela. A região tem uma característica urbana muito forte. Ela já foi uma ligação intermunicipal, mas hoje não é mais apenas isso”, explicou Rafaela.
Grupo debateu propostas para o Complexo viário Jacu-Pêssego (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Para acomodar os usuários mais vulneráveis na via com maior segurança, os presentes no evento trabalharam no desenho de duas interseções. Participaram do evento técnicos da CET-SP, da SP Urbanismo, Dersa Desenvolvimento Rodoviário, Geologística Consultoria de Sistemas e a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida. "Essa troca de ideias e informações pode dar o impulso necessário para que a gente consiga fazer alguma transformação nessa região da cidade. Como ela é uma região periférica, apesar de existir uma necessidade muito grande de se fazer uma intervenção, estamos muito limitados em termos de recursos para poder fazer essa transformação rápida e adequada", afirmou Regina Maiello, da CET-SP. "Acho que esse trabalho pode abrir os olhos dos técnicos para conseguirmos chegar a um resultado e a uma ação de melhoria que não seja apenas trocar a placa de velocidade da via, pois temos necessidade de mais medidas de adequação para transformar a cidade em um lugar mais seguro", completou Regina.
Regina Maiello, da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, mostra as ideias debatidas em grupo (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Nesta sexta-feira (29), o workshop terá continuidade para que os presentes possam trabalhar em cima de ideias para intervenções em mais duas interseções da Jacu-Pêssego.