Educação e tecnologia guiam o desenvolvimento de Milton Keynes
Milton Keynes, no sudeste da Inglaterra, tem uma visão de futuro para 2050. O plano da cidade até lá é investir em educação e tecnologia para atrair jovens que desejem uma cidade com qualidade de vida e empregos desafiadores. Por meio de uma rede de parcerias com o governo nacional e empresas, a cidade está desenvolvendo um corredor de tecnologia com infraestrutura atrativa para encantar empreendedores. Uma nova universidade, espaços para conferências e a renovação do centro com opções culturais e edifícios modernos também fazem parte dos planos da cidade para 2050. “Como político, eu quero que as pessoas dessa cidade tenham as mesmas chances no futuro”, disse Peter Marland, líder do Milton Keyes Council, responsável pela administração da cidade.
Peter Marland (à esquerda), líder do Milton Keyes Council, e João Domingos, presidente do Instituto Pelópidas Silveira (Foto: Caroline Donatti/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Milton Keynes também investiu em uma escola para leitura e uso de dados para crianças. Lá, elas têm acesso às informações e são estimuladas a desenvolverem aplicativos simples. “Estamos desenvolvendo os cidadãos digitais do futuro”, afirma Geoff Snelson, diretor de estratégia e futuro do Milton Keynes Council. A criação de espaços de inovação faz parte da estratégia da cidade. O governo local disponibiliza dados e estimula os indivíduos a usarem essa estrutura para resolver problemas enfrentados no dia-a-dia. “A melhor abordagem para uma cidade que pensa no futuro é criar um espaço de inovação, pois o poder público não é tão rápido quanto a tecnologia”, comenta Geoff.
Geoff Snelson, diretor de estratégia e futuro do Milton Keynes Council (Foto: Caroline Donatti/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Assim como Glasgow, Milton Keynes modela uma cultura de colaboração para encontrar soluções em parceria. O desafio é fazer a conexão entre a expertise técnica e quem tem um problema a resolver dentro da vida urbana. A cidade estimula que as pessoas pensem em soluções para problemas enfrentados individualmente. Se a ideia for boa, o governo disponibiliza um técnico para checar a viabilidade da ideia e, se ela for factível, o poder público destina fundos para sua implementação. “É possível desenvolver novos serviços sem o envolvimento do governo. O governo não é a força motriz, mas o capacitador desse modelo”, pondera Geoff. Esses processos que visam a aprendizagem dentro e a partir da cidade, são potencializados pela Universidade Aberta (Open University), que desenvolve e compartilha conhecimento por meio de cursos e programas online. “A universidade precisa estar à frente e realizar operações comerciais a partir do resultado de pesquisas tangíveis”, comenta Alan Fresher.
Análise estratégica dos dados
Cidades inteligentes como Milton Keynes e Glasgow utilizam milhares de dados que compõem as bases para a tomada de decisão. Esses dados aumentam a cada hora. Estima-se que a quantidade de dados gerados dobra a cada 72 horas. Mas será que todos eles são necessários? Expor ao público os dados relevantes é o que define o uso que a informação terá. É preciso simplificar, gerar um ambiente agradável para atrair o usuário e disponibilizar dados que auxiliem as pessoas a tomarem decisões cotidianas ou planejadores a implementar medidas de prevenção de acidentes, por exemplo. “Eu gostaria que esses dados mostrassem às pessoas a pegada de carbono para que elas possam tomar decisões mais racionais na escolha do modo de transporte”, diz Celio Bouzada, diretor de planejamento da BHtrans.
Mas, conforme alertou Geoff, “o que é inteligente em Milton Keynes pode não ser em outra cidade”. Muitas vezes as cidades definem uma iniciativa sem entender se ela é mesmo necessária ou não. O investimento em tecnologia deve ser feito desde que haja clareza do problema a ser enfrentado. O contexto de cada local e os recursos disponíveis devem ser considerados nesta análise. Os investimentos devem ser direcionados para aquilo que é mais importante para a população. “Antes de começar a aplicar a tecnologia, precisamos entender qual é o problema. Depois, a gente parte para encontrar uma solução”, diz Alan Fischer, da Universidade Aberta.
Ideias em pequena escala: ônibus e carros elétricos
Todo o desenvolvimento desse conhecimento em geração de tecnologia urbana aconteceu a partir do zero. “Fazemos ensaios em pequena escala para testar e, se os testes forem aprovados, aumentamos o volume da iniciativa, ganhando escala”, comenta Geoff. O grande desafio de desenvolver novas tecnologias é que as empresas não querem assumir os riscos pelo investimento, mas é muito difícil inovar sem aceitar os riscos. Com segurança, não há inovação.
O risco precisa ser assumido por todos os parceiros: a academia, o governo e as empresas, pois nem todos os custos conseguem ser mensurados, muito menos o retorno do investimento. Essas inseguranças e incertezas não podem barrar ou atrapalhar a inovação. “Em nenhum país nós temos o exemplo de que a iniciativa privada fez esse investimento. Não dá para esperar, mas é possível fazer ensaios que vão subsidiar a tomada de decisão com mais segurança”, comenta Geoff.
Nessa fase de testes, Milton Keynes é pioneira no desenvolvimento de infraestrutura para incentivar a utilização de ônibus e carros elétricos. A cidade está construindo 17 postos de carregamento de carros elétricos. “Isso gera confiança para que as pessoas invistam nesse carro”, afirma Geoff. O investimento em carros elétricos duplicou nos últimos meses e é quatro vezes maior que a tendência nacional.
Até a atual fase de testes, os ônibus elétricos apresentam o potencial econômico do diesel, mas com baixa emissão de carbono. A frota, ainda limitada a 12 ônibus, percorre uma das principais avenidas da cidade e é carregada a partir de placas eletrônicas encaixadas na própria via. “As pessoas estão utilizando esse tipo de ônibus cada vez mais, pois sentem que estão utilizando uma tecnologia limpa”, comenta Geoff. “Toda essa tecnologia nos interessa”, resume Celio Bouzada, diretor de planejamento da BHtrans, já que Belo Horizonte tem uma meta de substituir 20% da frota por ônibus elétricos até 2030.
Dados sobre a implementação de ônibus elétricos em Milton Keynes (Foto: Caroline Donatti/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
O Secretário Nacional de Planejamento Urbano, Eleoterio Codato, comentou que no Brasil os principais argumentos para não investir nessa tecnologia baseiam-se nas informações de que a bateria é pesada, reduz o número de passageiros e o custo da operação é alto. Geoff afirma que, durante a operação, os custos são parecidos, que as baterias se encaixam no veículo e não causam uma redução no número de passageiros.
Acompanhe as notícias de como o Reino Unido pode ensinar ao Brasil sobre cidades inteligentes.
A missão técnica ao Reino Unido faz parte do projeto Cidades + inteligentes no Brasil, realizada em parceria entre WRI Brasil Cidades Sustentáveis e Future Cities Catapult e conta com o apoio da Embaixada Britânica. Celio Bouzada, da BHTrans; Eleoterio Codato, do Ministério das Cidades, João Domingos Azevedo, do Instituto Pelópidas Silveira (Recife), Matheus Ortega, gerente de infraestrutura do Prosperity Fund da Embaixada Britânica; Guilherme Johnson e Lavínia Cox, da Future Cities Catapult participam da missão técnica ao reino Unido que visitará as cidades de Glasgow, Milton Keynes e Londres.