Do governo nacional aos bairros: líder em cidades inteligentes, Reino Unido mostra força na governança
Por muito tempo, o Parlamento Britânico tentou segurar o poder em Londres. As prefeituras não tinham força e dependiam do governo nacional. Em 2010, começou um movimento de descentralização do poder central com a união de cidades em busca de mais protagonismo na tomada de decisão. Um bom exemplo dessa disputa foi Manchester, que atualmente lidera um grupo de oito cidades vizinhas que decidiram trabalhar juntas em um modelo parecido ao de uma região metropolitana. Elas recebem orçamento do governo para controlar suas áreas, inclusive com autonomia para decidir sobre a utilização dos recursos disponibilizados pelo Parlamento.
“O governo costuma querer controlar tudo e essa abertura é um desafio, mas é fundamental para que a mudança aconteça. Não há maneira de continuarmos trabalhando da mesma forma com todas as mudanças que ocorrem no mundo. A abertura do governo também faz parte das cidades inteligentes, para mudar a forma como entregam o serviço público”, afirma Mark Prisk, membro do Parlamento pelo Partido Conservador, que conversou com os participantes da missão na tarde desta quinta-feira (8). “Meu papel é informar o Parlamento sobre assuntos atuais, mas as prefeituras precisam estar junto para trocar as melhores práticas de cidades inteligentes, de tecnologias de transportes e energia”, afirma Mark. “Eu estou convencido de que o papel do governo central é facilitar essa troca de informações e capacidade. As iniciativas de cidades inteligentes precisam ser compartilhadas”, conta Eleoterio Codatto, secretário nacional de Acessibilidade e Planejamento Urbano.
As decisões nas cidades do Reino Unido são tomadas por conselheiros em conjunto com o líder do conselho ou o prefeito, como é o caso de Londres, que também apresenta vários conselhos de bairro formados por representantes da comunidade. As eleições dos conselheiros é direta, assim como no Parlamento. “A relação entre o parlamentar e a população é muito forte. Eu fui eleito por cerca de 80 mil pessoas e, se algo acontecer, é minha responsabilidade direta. É muita pressão, mas isso é bom”, relata Mark. Os parlamentares britânicos são voluntários e não recebem salário, assim como os conselheiros.
O Parlamentar recebeu a delegação brasileira no Palácio de Westminster, um local com mais de 900 anos de história que reúne a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes, as duas casas do Parlamento do Reino Unido (Foto: Caroline Donatti/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Da abordagem nacional para o bairro
A força de um país capitalista que trabalha para conquistar excelência é sentida em todos os níveis de governo britânico. Em Londres, o bairro de Greenwich, a sudoeste da cidade, está empenhado em se tornar completamente digital e melhorar os serviços entregues à população, além preparar a população ativa para a conquista de empregos mais qualificados.
Greenwich foi um dos lugares que geraram mais inovação no mundo entre os séculos 18 e 19, mas a realidade do bairro hoje é bem diferente. A evolução na coleta e disponibilização de informação e no cruzamento de dados apontou caminhos para compreender melhor o funcionamento das cidades e ajudou no planejamento para prestar serviços de forma mais efetiva. Foi assim que Greenwich descobriu que o cenário de futuro para o bairro é bem desolador: 1/3 dos moradores não têm uma qualificação adequada. “Os serviços estão muito vulneráveis à inteligência digital. Precisamos ter certeza de que teremos pessoas qualificadas para as cidades do futuro”, afirma Allan Mayo, especialista em desenvolvimento de políticas de cidades inteligentes e transformação de serviços.
Allan Mayo, especialista em desenvolvimento de políticas de cidades inteligentes e transformação de serviços, falou sobre a experiência em Greenwich (Foto: Caroline Donatti/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Pensando nos problemas existentes nas cidades atuais e em caminhos para resolvê-los, o bairro desenvolveu uma ambiciosa e ampla estratégia que reconhece a necessidade de os gestores se adaptarem e mudarem frente aos desafios e às oportunidades que a tecnologia apresenta. A estratégia do bairro é baseada em liderança, visão e governança. As cidades de todo o mundo estão crescendo, a população está envelhecendo e não há pessoas qualificadas para os empregos do futuro. O Greenwich Digital é um projeto que pretende transformar a vizinhança, a economia, a infraestrutura e os serviços públicos. “Vamos fazer tudo isso junto, coordenar todas as frentes em um modelo flexível e resiliente dentro de um ambiente que já está construído”, afirma Allan.
O plano para transformar o local em um bairro digital baseia-se no fornecimento de acesso à internet rápida, na qualificação de pessoas em tecnologia e no investimento em infraestrutura digital de ponta. Com esses elementos, eles esperam atrair empreendedores para o bairro e melhorar os serviços públicos a partir de um banco de dados abertos. “Para sermos competitivos, não precisamos apenas de conexão rápida, mas de modelagem de informação. A internet das coisas nos ajuda a montar essa infraestrutura”, afirma Allan.
As cidades inteligentes são criadas por pessoas que interagem e usam a tecnologia para catalisar o desenvolvimento econômico e a melhoria da qualidade de vida. Essas interações são consideradas inteligentes, pois resultam em um uso estratégico da infraestrutura, dos serviços e da informação com planejamento e gestão urbana. Esse modelo de cidade conhecido como cidades inteligentes surge para apresentar respostas às necessidades sociais e econômicas da sociedade urbana atual.
Greenwich também busca unir os dados estáticos com as informações das pessoas para entender melhor suas necessidades e desejos. Todas essas informações alimentam uma plataforma de dados que está conectada a uma plataforma maior, da cidade, onde tudo é planejado. “Já estamos estudando como todos esses dados podem ajudar os moradores a ter mais qualidade de vida e a facilitar a gestão do fornecimento de serviços para a população”, afirma Allan. A ideia é que todos os dados coletados de sensores e de dispositivos pessoais móveis sejam analisados e depois disponibilizados para as pessoas em dashboards ou APIs, para que todos consigam visualizar e utilizar os dados. Allan ressalta que tudo isso, inclusive o uso de veículos autônomos, precisa ser testado com as pessoas para ter certeza de que esses investimentos têm uma importância também para as pessoas. “Muitas vezes temos uma ideia e o público não gosta. Nos EUA, eles não gostaram de ser vigiados, por exemplo. Nós temos grandes ideias, mas se o público diz não, é não”, ressalta Allan.
Até 2050, Londres terá gasto £1.5 milhão em investimento de infraestrutura inteligente.
A missão técnica ao Reino Unido faz parte do projeto Cidades + inteligentes no Brasil, realizada em parceria entre WRI Brasil Cidades Sustentáveis e Future Cities Catapult e conta com o apoio da Embaixada Britânica. Celio Bouzada, da BHTrans; Eleoterio Codato, do Ministério das Cidades, João Domingos Azevedo, do Instituto Pelópidas Silveira (Recife), Matheus Ortega, gerente de infraestrutura do Prosperity Fund da Embaixada Britânica e Guilherme Johnson, da Future Cities Catapult, participam da missão técnica ao Reino Unido que visitará as cidades de Glasgow, Milton Keynes e Londres em busca de boas ideias que possam inspirar as cidades brasileiras. Joana Sampaio, diretora de cooperação e captação de recursos do Porto Digital de Recife, também acompanhou a visita.
Mark Prisk recebeu o grupo no Westminster Hall (acima) na tarde desta quinta-feira (8) e Allan conversou com os delegados da missão técnica na sede de Futures City Catapult.