Aumentar o acesso à energia nas cidades é imperativo para o desenvolvimento econômico, ambiental e social
Um novo estudo do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis mostra que milhões de habitantes em algumas das cidades que mais crescem no mundo não têm acesso a fontes de energia limpa e confiável – e esse desafio só aumenta com o tempo.
“As pessoas frequentemente se surpreendem ao saber que a falta de acesso a eletricidade e combustíveis limpos para cozinhar não é um problema apenas das áreas rurais, mas atinge também muitas zonas urbanas no sul global”, comenta Ani Dasgupta, diretor do WRI Ross Centro. “As cidades precisam assumir o controle de suas estratégias de energia – isso pode fazer a diferença, e nós sabemos que tanto as cidades quanto seus habitantes só poderão prosperar quando serviços confiáveis estiverem à disposição de todos”, complementa.
Em 2012, apenas 58% da população urbana detinha acesso à eletricidade nos países de baixa renda e quase 500 milhões de pessoas em todo o mundo utilizavam materiais nocivos e de fontes sujas para cozinhar, como carvão e madeira. Até 2050, estima-se que a população urbana global aumente em 2,5 bilhões de habitantes, com o crescimento concentrado principalmente na África e na Ásia, criando um desafio sem precedentes de acesso à energia, em especial para as pessoas de baixa renda. Além disso, o antigo modelo de desenvolvimento baseado no carvão, que predominou por muito tempo no norte global, não é mais viável ou sustentável hoje, dadas a preocupação crescente com os impactos da poluição atmosférica na saúde e a necessidade de mitigar tanto a insegurança no consumo de energia quanto os riscos climáticos.
“Focar em combustíveis limpos para cozinhar é importante também a partir de uma perspectiva de gênero”, destaca Bipasha Baruah, pesquisadora líder em direitos da mulher na Universidade de Western Ontario, no Canadá. “Cozinhar utilizando combustíveis sujos é a causa de 3% de todas as doenças no mundo, e as crianças representam uma parcela desproporcionalmente grande nesse número”, acrescenta a especialista.
Projeto do Programa Mundial de Alimentos, da ONU, beneficia mulheres com fornos mais eficientes (Foto: Albert Gonzalez Farran/UNAMID)
O volume mais recente do World Resources Report (WRR), “Rumo a uma cidade mais igualitária”, traz soluções que podem melhorar a saúde dos moradores, o meio ambiente e a economia das cidades. “O desafio é gerar energia para essas cidades de uma forma econômica e ambientalmente sustentável – que seja financeiramente viável e proteja o planeta de emissões fora de controle”, avalia Michael Westphal, autor principal do estudo e associado sênior da equipe de financiamento sustentável do WRI Ross Centro.
O estudo foca em três soluções que as cidades do sul global podem implementar:
- Usar combustíveis de cozinha mais limpos, como o gás liquefeito de petróleo (LPG, na sigla em inglês), levaria a reduções consideráveis na poluição e contribuiria para melhorar a saúde das pessoas, além de economizar tempo e dinheiro em muitos casos. A poluição atmosférica interna, que se origina ao cozinhar utilizando combustíveis sujos, causou cerca de 550 mil mortes prematuras nas áreas urbanas em 2010. O problema é mais fácil de ser combatido nas cidades do que nas áreas rurais, uma vez que as primeiras contam com a infraestrutura e densidade necessárias para o desenvolvimento de uma rede de distribuição mais moderna e acessível. No Brasil, menos de 20% das donas de casa tinham acesso a LPG ou gás natural nos anos 1960. O governo, então, construiu infraestrutura em escala nacional para a produção e distribuição, desenvolveu um mercado de varejo para o processo de distribuição e subsidiou o combustível para famílias de baixa renda. Hoje, 100% das famílias residentes em áreas urbanas têm acesso a LPG.
- Instalar mais sistemas de distribuição de energia renovável. O modelo de conexão de rede do século XIX não pode resolver sozinho os problemas de acesso à energia observados no sul global. Sistemas de distribuição como painéis solares podem gerar eletricidade de forma mais limpa e acessível nas áreas urbanas. Sistemas fotovoltaicos nos terraços aumentam a segurança e a resiliência e criam oportunidades econômicas. Em todo o mundo, os painéis solares geram mais empregos por unidade de eletricidade do que qualquer outra fornte de energia. Também podem reduzir os custos relacionados aos processos de transmissão e distribuição, e modelos disponíveis para aluguel podem tornar o investimento inicial mais acessível. A energia solar está crescendo cada vez mais na África Subsaariana. De 2014 a 2015, o número de famílias utilizando sistemas pay-as-you-go (um serviço em que a pessoa paga na medida em que utiliza) na região dobrou, chegando a 500 mil. Uma companhia sozinha conectou mais de 280 mil casas no Quênia, Tanzânia e Uganda e continua a atender 500 novas casas a cada dia. A Cidade do Cabo, entre muitas outras no sul global, já permite que aqueles que utilizam sistemas solares fotovoltaicos vendam o excedente de eletricidade de volta à grade, um processo chamado net metering.
- Implementar medidas de eficiência energética de edificações. Normas de construção e padrões de eletrodomésticos que estimulem a eficiência energética reduzem o consumo e os gastos com energia. Edifícios melhores e com temperaturas mais amenas tornam as cidades mais habitáveis e resilientes durante ondas de calor e são benéficos à saúde. Medidas de eficiência podem reduzir o uso de energia entre 50% e 90% em prédios novos e entre 50% e 75% em construções já existentes. Optar por eletrodomésticos mais modernos e eficientes pode reduzir os gastos com eletricidade em casa entre 40% e 50%. Cada quilowatt hora não gasto em cidades que dependem de usinas de energia movidas a combustíveis sujos também implica uma redução de emissões. A cidade de Tianjin, na China, promulgou normas de construção próprias, indo além do código nacional e resultado em uma redução de 30% em sua demanda por aquecimento. Prédios residenciais construídos entre 2005 e 2009 obtiveram uma economia de energia equivalente a investir em uma nova usina de aquecimento de 300 megawatts.
“Essas soluções exigem ação de todos os atores envolvidos – governos nacionais, estaduais e locais, organizações não governamentais e a comunidade. Esforços bem sucedidos precisam ser aplaudidos, encorajados e replicados”, ressalta Westphal. “Neste século urbano, se não garantirem o acesso a serviços de energia, muitas cidades estarão abrindo mão de seu potencial de liderar o crescimento econômico, melhorar o meio ambiente e construir espaços onde todos possam viver, trabalhar e prosperar”, finaliza.

