Robert Cervero: sucesso do DOTS exige planejamento de longo prazo

Acesso ao transporte coletivo é um dos princípios do Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
Robert Cervero, diretor da Universidade da Califórnia, doutor em planejamento urbano e um reconhecido pensador da área, esteve no Rio de Janeiro na última semana para falar sobre Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável (DOTS) em um evento organizado pelo Banco Mundial, em parceria com o WRI Brasil Cidades Sustentáveis e com a Câmara Metropolitana do Rio de Janeiro. Conversamos com o especialista sobre o potencial do DOTS de mudar a dinâmica das cidades a partir do foco no transporte sustentável, os benefícios econômicos desse modelo de planejamento e o que as cidades devem fazer para implementá-lo de forma bem-sucedida.
O conceito de Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável (DOTS) refere-se a áreas de uso misto, planejadas para maximizar o acesso ao transporte coletivo. De que forma a maneira como uma cidade é planejada pode influenciar os hábitos de deslocamento da população?
Robert Cervero. Se há um sistema de transporte acessível às pessoas, aliado a um deslocamento de cinco a dez minutos de caminhada até que se chegue às estações – com calçadas e quarteirões seguros – as pessoas percorrerão esse trajeto a pé, e é possível atraí-las para o transporte coletivo e evitar congestionamentos. O que urbanistas podem fazer é desenvolver um plano para os bairros – um plano original, construído a partir do potencial natural da região, implementando as infraestruturas necessárias de apoio ao transporte. São necessários tratamento de esgoto, drenagem para tempestades e capacidade suficiente para abarcar a diversidade de usos – serviços diversos, comércio, parques. Em suma, planejar as ideias e colocar como alta prioridade o sistema de transporte coletivo.
Quais são os elementos de um bairro DOTS e como operam juntos para beneficiar a cidade como um todo?
RC A definição de Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável é uma mescla de funcionalidades, criando bairros onde as pessoas possam viver, trabalhar, se divertir, aprender, brincar, fazer compras. Não necessariamente em todo o bairro, mas deve haver espaço suficiente para essas atividades. Essa mescla de funções é fundamental, além de ampliar a conectividade para os pedestres. As cidades devem investir em planos de longo prazo, que integrem o DOTS ao planejamento das áreas urbanas. É possível ter um ou dois projetos DOTS isolados, mas, a menos que um grande número pessoas comece a se deslocar entre eles, não haverá benefícios significativos. Eu diria que, sem um grande planejamento, com a visão em um período de 20, 30 anos, dificilmente algo vai mudar. Isso é muito importante para uma implementação bem-sucedida do DOTS.
Quais cidades podem ser citadas como exemplos bem-sucedidos na implementação de projetos DOTS?
RC Os primeiros grandes sucessos de implementação do DOTS são Estocolmo e Copenhague. Essas cidades estenderam as linhas de trem até os subúrbios antes que existisse um mercado que determinasse o crescimento e o formato das cidades. Construíram desde cedo um planejamento de comunidades com espaços comunitários e uma rede de caminhos para os pedestres conectando as diferentes atividades ao redor de áreas verdes. Hoje, podemos encontrar cidades planejadas a partir dos conceitos do DOTS. É um processo mais caro, mas com muitos benefícios. Na América do Norte, diria que Portland é a cidade que, provavelmente, tem a melhor organização do trânsito. Em boa parte, porque há instituições regionais que trabalham com o governo para orquestrar o crescimento da área do metrô. Outros pontos positivos da cidade são o cuidado com o design da área ao redor das estações e a entrega de um serviço de transporte coletivo de qualidade – com ônibus, trem e metrô pontuais e frequentes. Já na Ásia, vejo que o melhor exemplo de DOTS está em Cingapura. O sistema de transporte de lá está ligado, ao mesmo tempo, à demanda e ao controle dos usuários, fazendo com que a opção pelo carro não seja vantajosa. Por fim, na América Latina, Curitiba é uma das cidades mais bem desenhadas, porque houve uma visão a longo prazo do crescimento da cidade muito antes de outras metrópoles. Investiram em BRTs, e a cidade ficou muito melhor. Há muitos outros exemplos, mas acho que esses são inspiradores o suficiente para que as pessoas possam aprender.
Ao aumentar a densidade no entorno de estações de transporte coletivo, onde estão muitos serviços urbanos, o DOTS ajula a criar novas centralidade e a minimizar o espraiamento urbano. Por que essa é uma mudança positiva para as cidades?
RC Temos um estilo de vida em que todos têm seu carro particular e todos os problemas vêm daí, como congestionamentos, poluição do ar, acidentes de trânsito. Nós conhecemos as consequências de cidades excessivamente dependentes do carro. A cidade fica menos atrativa. Acredito que, finalmente, entendemos que essas cidades sofrem com os impactos de veículos particulares. O DOTS está mudando esse curso, saindo radicalmente desse modelo em direção a como as cidades eram cem anos atrás, quando não tinham carros e eram lugares fáceis de se percorrer a pé. De qualquer forma, acho que ainda não temos o senso de qualidade de comunidade. Nesse sentido, o DOTS é um sistema sustentável com muito potencial para crescer. Se há um espaço viável, nós podemos desenvolvê-lo com transporte coletivo de alta qualidade.
Quais são os benefícios econômicos do DOTS?
RC O maior benefício é a redução do uso do carro e, consequentemente, dos problemas ligados a essa dependência, como a emissão de poluentes. Além disso, outro grande benefício é a construção de capital social. As pessoas ficam mais sociáveis, se encontram mais, conhecem seu bairro e vizinhos. Em sociedades mais dependentes do carro, as pessoas tendem a ser menos conectadas aos lugares.
Muitas cidades brasileiras passaram por um rápido processo de urbanização e se desenvolveram seguindo um modelo carrocêntrico. O que os governos nacionais e locais podem fazer para mudar para um modelo mais sustentável e centrado nas pessoas?
RC A primeira coisa a fazer é: se o carro está criando muitos problemas, temos que encarecê-lo. Aumentar taxas, tributos e o preço dos combustíveis. Isso vai gerar rendimento para investir em transporte coletivo. Não só em mais qualidade no sistema, mas em planejamento de um novo e melhor projeto para as comunidades. O segundo ponto: só é possível ter uma região funcional de transporte conectado com instituições fortes e bom planejamento – então é preciso investir nisso também.
Considerando um período de crise econômica, como as cidades podem financiar projetos DOTS?
RC O mercado, em cidades congestionadas como as brasileiras, vai criar mais qualidade e colocar os preços altos no sistema de transporte. Um pouco desse aumento dos preços pode ser satisfatório para usar o rendimento em investimentos no sistema de transporte coletivo do bairro. É o mesmo que eu disse sobre carros: precisamos encarecê-los e aplicar os rendimentos no sistema de transporte. Então, acredito que a crise econômica pode ajudar no processo do DOTS.
Lideranças de todas as partes do mundo estão reunidas em Marrakech na COP 22 para avançar as determinações do Acordo de Paris. O DOTS pode contribuir para reduzir emissões? Como?
RC Criando um sistema de transporte coletivo de qualidade e centros urbanos planejados para que as pessoas usem menos o carro, levando-as a usar mais ônibus e trens. Mas isso não acontece quando os ônibus e os trens, embora de alta qualidade, acabam tão lotados que a classe média vai deixar de usá-los. É preciso haver um planejamento estratégico, para que esses sistemas estejam integrados ao ambiente ao redor e este, por sua vez, seja pensando com foco na circulação das pessoas.
Robert Cervero com parte da equipe de Desenvolvimento Urbano do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, em evento no Rio de Janeiro (Foto: Elis Bartonelli)