Como a tempestade que atingiu Porto Alegre assinala a importância do conceito de resiliência?
(Prefeito José Fortunati e os líderes das regiões da cidade que auxiliaram na criação da Primeira Estratégia de Resiliência - Foto: Mariana GIl/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)
No final de janeiro, Porto Alegre lançou sua Primeira Estratégia de Resiliência. O lançamento sinalizou o importante avanço da cidade, pois é o resultado de um trabalho que acontece desde 2013, quando a capital gaúcha foi selecionada pela Fundação Rockefeller para participar do Desafio 100 Cidades Resilientes. A posição da Estratégia é clara: por meio de recomendações e ações práticas, preparar Porto Alegre para enfrentar situações de risco e adversidades naturais ou causadas pelo homem. Além disso, a capital gaúcha quer figurar como referência mundial em resiliência até 2022.
Dois dias após o evento de apresentação da publicação, as estratégias de resiliência se mostraram imprescindíveis. Por conta de uma tempestade de grandes proporções que atingiu a Capital gaúcha. Não é preciso maiores descrições do que os próprios números sinalizam o desastre: ventos de até 119km/h, cerca de 300 árvores caídas sobre a fiação elétrica e 450 mil clientes sem luz em casa. Um panorama básico de como aconteceu o evento de proporções trágicas pode ser visto no vídeo abaixo, feito pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis, com o envio de imagens de colaboradores.
Porto Alegre Resiliente from WRI Brasil Cidades Sustentáveis on Vimeo.
Com imagens desse gênero, a pergunta sobre quais medidas efetivas o projeto de resiliência assume entrou em pauta. No site do projeto, a resposta: “No decorrer de um evento extremo, as ações mais importantes são aquelas executadas pelos órgãos públicos de ponta, que tratam dos serviços básicos e que garantem o funcionamento de uma cidade. A integração dos serviços e a adesão a uma visão associada e colaborativa são fundamentais para potencializar a ação, gerando sinergia. Nesse ponto, o Desafio Porto Alegre Resiliente garantiu um ganho imediato”.
Exatamente por estar em pauta, é inegável que o conceito de resiliência permitiu aos órgãos públicos do Município o aprimoramento dos seus processos internos, “com uma constante avaliação dos problemas e busca por soluções que façam a Cidade retomar a normalidade mais forte e em tempo cada vez menor”
Afinal, desde que foi instaurado o Desafio Porto Alegre Resiliente, aconteceram treinamentos específicos para que a ressignificação da atuação da Defesa Civil do Município fosse, hoje investida da lógica da Resiliência, assim como levou a uma nova leitura da Comissão Permanente de Atuação em Emergências (COPAE). A organização da força-tarefa da Prefeitura de Porto Alegre e do Governo Estadual, com reuniões diárias realizadas no Centro Integrado de Comando da Capital (Ceic), é um exemplo de ação da Comissão.
A população também assumiu papel primordial do diagnóstico de resiliência. A estratégia do município foi elaborada com o auxílio dos moradores das 17 regiões da cidade. A construção da estratégia contou também com a colaboração de atores do setor público, privado, universidades, lideranças comunitárias e terceiro setor. O ponto em que Porto Alegre se diferenciou foi a utilização das áreas das 17 regiões já demarcadas pelo Orçamento Participativo. Foi por meio do conhecimento local e a percepção dos pontos comuns e distintos da cidade que possibilitou a experiência de co-criação da Estratégia. Por esse motivo, as 17 regiões (Humaitá/Navegantes, Região Noroeste, Região Leste, Região Lomba do Pinheiro, Região Norte, Região Nordeste, Região Partenon, Região Restinga, Região Glória, Região Cruzeiro, Região Cristal, Região Centro Sul, Região Extremo Sul, Região Eixo Baltazar, Região Sul e Região Centro) foram as primeiras a receber suas estratégias regionais de resiliência.
A Estratégia de Resiliência de Porto Alegre desenvolveu 6 objetivos estratégicos que irão orientar a cidade. São estes: Cidade do ecossistema dinâmico e inovador; Cidade da cultura de paz; Cidade da prevenção de riscos; Cidade da mobilidade de qualidade; Cidade da terra legal; Cidade do Orçamento participativo e gestão resiliente. Dentro desses objetivos, há cerca de 25 metas para o aumento da resiliência e mais de 60 iniciativas que contribuirão para o aumento da resiliência na cidade até 2022. Para entender os objetivos estratégicos, acesse a publicação, incorporado abaixo, na página 5.
A Estratégia específica das regiões mapeia desde o acesso à rede de água potável até a renda média e a arborização do entorno das regiões. Após, estabelece os objetivos estratégicos e riscos enfrentados. Dessa forma, a Estratégia de Resiliência aponta como a cidade precisa estar mais preparada para enfrentar eventos como a tempestade de janeiro. Para isso, as pessoas precisam estar preparadas e, cada vez mais, resilientes.
Trajetória
>O desafio Porto Alegre Resiliente foi consolidado em agosto de 2014, quando a parceria entre a Prefeitura de Porto Alegre e a Fundação Rockefeller foi consolidada. A cidade iniciou a realização de um amplo debate junto a distintos atores sociais para estabelecer de maneira concreta os principais desafios para elaborar o plano de resiliência da cidade. Parceiro do projeto, o WRI Brasil formulou indicadores de resiliência individual, divididos em seis grupos: coesão social, extensão institucional, percepção de risco, conhecimento e competências, comunicação e recursos econômicos. Dessa forma, foi possível mapear ações para reduzir a vulnerabilidade das pessoas nas comunidades, aumentar a capacidade de adaptação e da equidade social, bem como incentivar comunidades a ter uma maior cultura colaborativa e indivíduos mais preparados no enfrentamento de adversidades.
Várias etapas de trabalho foram traçadas e realizadas. Porto Alegre consultou representantes de todos os segmentos da sociedade: poder público, iniciativa privada, universidades, terceiro setor e comunidades. Após, foram identificadas cinco áreas prioritárias: Diversificação da Economia, Bem Viver, Mobilidade Humana, Riscos e Regularização Fundiária.
Para cada um desses tópicos foram estabelecidos grupos de trabalho e metodologias que incluíram consultas às comunidades e a especialistas. Como resultado das consultas, vieram os projetos concretos para sanar as principais carências de cada área.
Desse esforço coletivo resultou a estratégia lançada nesta quarta-feira, 27. No documento estão elencadas 35 iniciativas - com metas, parceiros responsáveis e marcos para sua realização - que serão o marco inicial das ações.
A importância da resiliência urbana
O impacto das mudanças climáticas afetará primariamente as cidades. O raciocínio é lógico e baseado no fato de que, hoje, 85% da população brasileira vive em áreas urbanas. A população é submetida a enchentes, períodos de seca, deslizamentos, e outras situações que colocam habitantes e patrimônios em risco. Em 2013, Porto Alegre e Rio de Janeiro tiveram a oportunidade de ampliar o poder de adaptação e resiliência, ou seja, a capacidade de lidar com estes momentos extremos e seus impactos, pois foram as duas cidades brasileiras selecionadas para participar do Projeto 100 Cidades Resilientes da Fundação Rockefeller.
Segundo estudo do Instituto de Adaptação Global (GAIN, na sigla em inglês), o Brasil não está totalmente preparado para as mudanças climáticas e seus impactos. A pesquisa ressalta que os principais pontos fracos do Brasil estão relacionados a sua infraestrutura e ao fato de ser um país de enorme extensão e com grande população pobre. Atualmente, o país é o 112º do ranking de países com assentamentos urbanos mais vulneráveis em uma lista de 180 nações.
A falta de preparo se torna preocupante quando os impactos das mudanças climáticas se apresentam em crescente evidência. Em 2015, por exemplo, a temperatura média sobre as superfícies terrestres e oceânicas do nosso planeta foi a maior registrada desde que esse tipo de análise começou a ser feita, em 1880. O Estudo e a comprovação de que vivemos o ano mais quente da história é da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) e está disponível aqui.
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