Desenvolvimento urbano e mobilidade: Transforming Transportation 2016 debate as bases da sustentabilidade nas cidades

Durante os dois dias de evento, especialistas debateram os aspectos que unem desenvolvimento urbano, cidades e transportes e os meios de melhorá-los (Foto: Aaron Minnick/WRI)

Dos compromissos assumidos globalmente às agendas locais, há um caminho que lideranças municipais em todo o mundo precisam aprender a percorrer de forma efetiva, a fim de que a sustentabilidade se torne uma realidade no setor de transportes. Essa foi a temática que norteou as discussões do Transforming Transportation 2016, evento realizado anualmente em Washington e organizado em parceria pela EMBARQ, iniciativa de mobilidade do WRI Ross Center for Sustainable Cities, e pelo Banco Mundial.

“Se o acordo de Paris vai ser bem-sucedido ou não, isso depende do que fizermos agora”. Com essas palavras, o Presidente e CEO do WRI, Andrew Steer, deu início à conferência, que este ano aconteceu nos dias 14 e 15 de janeiro, reunindo renomados especialistas para debater os diferentes aspectos que inter-relacionam desenvolvimento sustentável, cidades e transporte.

Em setembro do ano passado, a ONU estabeleceu os objetivos de desenvolvimento sustentável que devem guiar o crescimento de municípios e nações no período pós 2015. Entre eles, tornar as cidades e assentamentos humanos mais inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. Também em 2015, teve início em Paris, com a COP 21, uma nova era na luta contra as mudanças climáticas. As cidades ganharam protagonismo e precisam liderar o combate às mudanças no clima, de um lado, e o trabalho pelo desenvolvimento sustentável, de outro. No entanto, transformar essas metas em ações locais concretas e benefícios tangíveis para populações em tantas partes do mundo é um enorme desafio. Requer trabalho conjunto entre cidades, mas também entre as diferentes instâncias de governo, além do alinhamento de objetivos e das ações para atingi-los.

Nacional e local: trabalho conjunto para concretizar mudanças

Um dos destaques da programação do Transforming Transportation em 2016 foi a discussão sobre o que os governos em nível nacional podem fazer para apoiar gestores municipais e garantir que medidas em prol da mobilidade e do desenvolvimento urbano sustentáveis sejam postas em prática nas cidades. O trabalho conjunto entre governos nacionais e locais é fundamental para o desenvolvimento urbano sustentável, mas exige comprometimento dos gestores em ambos os níveis.

Ações implementadas localmente têm o potencial de alavancar a sustentabilidade urbana, como apontou Holger Dalkmann, diretor da EMBARQ: “Voltamos de Paris com a tarefa de empoderar as cidades, e esse é o momento de colocar em prática ações urgentes e fortes. O desenvolvimento urbano e o desenvolvimento econômico precisam andar juntos, em uma abordagem holística, para que possamos construir cidades mais sustentáveis”.

Holger Dalkmann (Foto: Aaron Minnick/WRI)

Dario Lopes, Secretário Nacional de Transporte e Mobilidade Urbana, também participou da discussão, compartilhando as experiências do contexto brasileiro. Dario apontou o crescimento da população, a expansão das cidades e o aumento da frota de carros, que em 2015 atingiu a marca de 45 milhões, como principais fatores para os problemas do país quando o assunto é mobilidade. Além disso, em um cenário de crise, o financiamento de investimentos na mobilidade urbana torna-se um desafio para mudar a realidade das cidades. “O Brasil tem 60 milhões de carros e motos, e nós estamos matando aproximadamente 42 mil pessoas em acidentes de trânsito por ano. Trabalhamos para melhorar a qualidade do transporte coletivo, mas sabemos que, infelizmente, independentemente do governo no Brasil, é mais provável que subsídios sejam usados para combustível e veículos. Precisamos deixar para trás valores ultrapassados no que tange à mobilidade, buscar novas fontes de financiamento e investir na qualificação do transporte coletivo”, declarou o secretário.

Planejamento de transportes e do uso do solo precisam avançar juntos

O transporte está no centro dos compromissos estabelecidos global e localmente – é parte do desafio e, por isso, também da solução.  As emissões do setor podem dobrar até 2050, e medidas focadas em promover a mobilidade sustentável tornam-se, cada vez mais, necessárias e urgentes. Para que as cidades sejam bem-sucedidas em termos de desenvolvimento sustentável, o planejamento dos transportes deve ser integrado a outro, igualmente essencial: o do uso do solo. Estruturar ações integradas entre mobilidade e ocupação do espaço urbano contribui para promover o uso misto e, assim, gerar um maior equilíbrio entre residencial e comercial, evitando deslocamentos.

O assunto foi debatido no painel “Construindo cidades compactas através do planejamento integrado do uso do solo e de transportes”, do qual participaram Luis Antonio Lindau, diretor do WRI Brasil Cidades Sustentáveis; Guilherme Medeiros, Coordenador do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável da Região Metropolitana de Florianópolis (PLAMUS); Luong Minh Phuc, Diretor do BRT de Ho Chi Minh (Vietnam); e Sanjay Shukla, Secretário do Departamento de Habitação e Meio Ambiente de Chhattisgarh (Índia).

Lindau destacou o caráter vital do planejamento integrado entre transportes e uso do solo para a construção de cidades sustentáveis (Foto: WRI)

O planejamento integrado é a essência dos casos de sucesso entre as cidades. Como bons exemplos, Lindau citou Florianópolis e Belo Horizonte, capitais brasileiras que estão investindo em políticas de planejamento integrado. “Há um elemento chave nos exemplos de Belo Horizonte e Florianópolis, que é a análise do papel dos transportes no desenvolvimento urbano. Nos dois casos, a integração entre o planejamento de transportes e do uso do solo foi crucial, com a avaliação prévia dos diferentes cenários possíveis e diálogo com a sociedade. Essa abordagem foi determinante tanto para o sucesso das cidades quanto para obter o apoio da população”, apontou.

O aprendizado que vem com a troca de experiências

Não existe uma receita única para a sustentabilidade urbana: cada cidade, atentando para suas configurações econômicas e sociais, deve adaptar conceitos e pôr em prática medidas que se ajustem às necessidades da população. Sem um guia fixo de orientações aplicáveis a qualquer cenário, as cidades precisam trabalhar em conjunto umas com as outras.

Belo Horizonte, mais uma vez, é o exemplo. Através do Projeto SOLUTIONS, a capital mineira trabalha em parceria com a cidade de Bremen (Alemanha) em três áreas-chave:  transporte não motorizado, vias urbanas de baixa velocidade (zonas 30) e logística urbana. Na visão de Celio Bouzada, Diretor de Planejamento da BHTRANS, a troca de experiência com cidades bem-sucedidas na implantação de soluções urbanas ajuda a vencer barreiras e a mudar a cultura de atores envolvidos nos projetos. “Nosso objetivo é buscar mais qualidade para o transporte público e mais infraestrutura para pedestres e ciclistas. Foi uma felicidade trabalhar com Bremen, e as pessoas foram o principal fator de sucesso. Contamos com as pessoas certas no lugar certo, fazendo o que elas gostam de fazer”, comentou.

A troca de conhecimento e experiências entre cidades pode trazer grandes contribuições para o desenvolvimento de soluções de mobilidade e de espaços urbanos mais sustentáveis. Entretanto, o sucesso de laços de cooperação entre cidades deixa um legado que vai além do conhecimento técnico e das próprias soluções de mobilidade sustentável: as diferenças também são uma oportunidade de aprender.

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