EUA e China: acordo climático passa pelas cidades
Publicado em: 28/11/2014

Duas maiores potências econômicas, EUA e China podem inspirar novos compromissos em redução de carbono entre os demais países na COP 20, em Lima. (Foto: U.S. Embassy The Hague/Flickr)
O acordo selado entre Estados Unidos e China em novembro foi um marco na agenda climática global. As duas potências lideram as emissões mundiais, respondendo por 16% e 29%, respectivamente. Ao estabelecer metas ambiciosas de redução, os líderes Barack Obama e Xi Jinping revelam a importância de colocar a mudança climática no epicentro das decisões políticas. E os caminhos-chave para alcançar as novas metas passam pelas cidades, que ocupam 2% da superfície terrestre, mas são responsáveis por 70% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) anualmente.
O compromisso dos EUA é reduzir as emissões em 28% até 2025, tomando os níveis de 2005 como parâmetro. A China estabeleceu 2030 como o ano em que os números de emissões vão começar a decrescer. Assumiu a responsabilidade de incrementar a utilização de combustíveis não fósseis em 20% até a data. As metas referem-se às duas potências, mas foram reveladas em tempo para a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP 20, em Lima Peru, na primeira quinzena de dezembro. Isso significa que as lideranças globais lá presentes têm grandes chances de ser influenciadas pelas duas maiores potências do mundo em se tratando de emissões de carbono.
Objetivos ambiciosos requerem estratégias profícuas e a Casa Branca divulgou um plano de ação completo. Uma iniciativa em especial dedica-se à propulsão de cidades mais sustentáveis e energeticamente eficientes: aIniciativa para Cidades Inteligentes de Baixo Carbono. É uma resposta à tendência de urbanização desordenada que vem ocorrendo não apenas dos dois países, mas no mundo todo, trazendo prejuízos ambientais, econômicos e sociais.

A partir de 2030, números de emissão de carbono da China devem começar a decair. O uso de combustíveis não fósseis também é um dos compromissos firmados. (Foto: Benoit Colin/EMBARQ)
As cidades serão lar para 66% da população mundial, o equivalente a 2,5 bilhões de pessoas. Isso significa que é preciso planejar para que esse processo ocorra de forma coordenada, sustentável e eficiente. Como parte da iniciativa, EUA e China vão promover trocas de experiências a nível municipal em planejamento, políticas públicas e tecnologias para um crescimento sustentável, resiliente e de baixo carbono. O primeiro passo será a realização de uma cúpula de líderes das principais cidades de cada país para compartilhar as melhores práticas e estabelecer novos objetivos.
Sobre o pacto, Andrew Steer, presidente do World Resources Institute, no qual a EMBARQ Brasil está inserida, fez a seguinte declaração: "Que não cometamos erros, pois há muito mais a ser feito. Estados Unidos e China devem trabalham com afinco para atingir suas metas e ir ainda mais longe no futuro. Eles podem levantar a bandeira sobre o tema e vão tirar o máximo proveito das oportunidades econômicas de um futuro de baixo carbono. Um crescente corpo de pesquisas mostra que a ação climática gera benefícios econômicos e novas oportunidades." Leia a declaração completa.
Setor de transportes é desafio para meta brasileira
Dados da International Energy Agency (IEA) mostram que o Brasil ocupa a 12º posição no ranking global de emissões, mas acompanha ou mesmo supera o ritmo de crescimento dos primeiros colocados. Por exemplo, enquanto os Estados Unidos, em segundo lugar na lista, teve aumento de 10% nas emissões entre 1990 e 2011, a variação do Brasil foi de mais 98%, conforme o quadro abaixo:

Fonte: SISCA, 2013
Há cinco anos, o Brasil assumiu um compromisso voluntário através do Plano Nacional sobre Mudança do Clima. A meta é reduzir as emissões entre 36,1% e 38,9% até 2020. Um grande impulso em direção ao cumprimento destes níveis foi a queda de mais de 70% no desmatamento da Amazônia. No entanto, o Observatório do Clima alerta que, infelizmente, a dívida de carbono – em todos os setores – dá sinais desanimadores de crescimento.
O maior agravante está no setor de energia, que respondia apenas 11% das emissões em 2004, mas passou para 30% em 2012, de acordo com o Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (SEEG). Desta fatia, os transportes representam a maior demanda, com 32% em 2013. Paralelamente, a frota brasileira de automóveis vai triplicar até 2050. Se decisões para conter o uso irracional do transporte individual motorizado e melhorar as tecnologias veiculares do transporte coletivo não forem tomadas, o prognóstico é que o setor energético seja o principal vilão da poluição no Brasil.
Para contornar estas tendências, o consenso entre a comunidade internacional especializada no assunto é o transporte sustentável. Felizmente, algumas cidades brasileiras fizeram do desafio uma oportunidade. Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília implantaram, com apoio da EMBARQ Brasil, seus sistemas BRT (Bus Rapid Transit). Investir em um transporte coletivo de qualidade pode atrair usuários do transporte individual, por isso é um importante mecanismo para frear emissões.
No Distrito Federal, a implantação do BRT aconteceu em paralelo a outras ações: a modernização de 100% da frota de ônibus do transporte coletivo, agora com tecnologia Euro5, e a reestruturação de linhas. A EMBARQ Brasil realizou um estudo que analisou os impactos de tais ações, e descobriu que o material particulado, um dos poluentes locais, será reduzido em 95%, o equivalente a 95 toneladas por ano. Dentre os gases de efeito estufa, o conjunto de intervenções poderá reduzir 55% das emissões, que representam em torno de 200 mil toneladas por ano.

Modernização da frota do Distrito Federal, início das operações do Expresso DF e reestruturação de linhas impactaram a qualidade do ar na capital federal. (Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)
As cidades são palco e protagonistas da história mundial. Onde grandes descobertas científicas acontecem, onde futuros líderes dão seus primeiros passos, onde sonhos são realizados, onde milhões de pessoas vão às ruas para protestar seus direitos. Ou simplesmente onde pessoas saem de casa todos os dias para ir ao trabalho. Cada grande decisão hoje tomada hoje é determinante para o futuro das cidades e do planeta.
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