Metodologia premiada pode auxiliar na redução de acidentes de trânsito
Publicado em 30/06/2014

Todos os anos, somente na América Latina e na região do Caribe, são contabilizadas cerca de cem mil mortes e mais de cinco milhões de pessoas feridas por causa de acidentes de trânsito. Isso levou o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) a traçar algumas estratégias para contribuir na redução desses índices alarmantes. Diversos estudos de caso na área da segurança viária, selecionados em 26 países, passaram por uma análise em um concurso realizado em parceria com o Centro Internacional de Formação de Atores Locais (CIFAL) e com o Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR).
Um dos três estudos premiados é de autoria da especialista em segurança viária da EMBARQ Brasil, Denise M. Chagas (foto abaixo), que acaba de ser publicado no livro “Fortalecendo o setor acadêmico para reduzir o número de mortes de trânsito na América Latina - Pesquisas e Estudos de Caso em Segurança Viária”. A especialista desenvolveu uma metodologia, sob o título "Ferramentas para reconhecimento de fatores causais de acidentes de trânsito", de coleta de dados própria para o Brasil, com base nas melhores práticas internacionais, cujos resultados podem ajudar a compreender os acidentes e evitar que eles voltem a acontecer. Na entrevista a seguir, Denise fala sobre a necessidade de aprimorar a coleta de dados de acidentes e de como as cidades podem se beneficiar com as informações disponibilizadas nesse novo formato, a exemplo da cidade de Belo Horizonte que já utiliza o formulário.

Como essa metodologia pode contribuir para a redução dos acidentes de trânsito?
Os dados de acidentes de trânsito são fundamentais para o planejamento de ações eficientes e objetivas para a redução de acidentes. No Brasil, há uma carência dessas informações, ou quando temos estes dados muitas vezes eles aparecem incompletos ou sua atualização demora muito para acontecer, já que as ferramentas para coleta de informação não são estruturada para esta função. A proposta desta metodologia é disponibilizar uma forma estruturada de coleta de dados e a construção de uma base de dados com foco na segurança viária. Acredito que, desta forma, podemos tratar do problema de maneira mais eficiente e assim ajudar a salvar mais vidas.
Quais foram os resultados obtidos na prática, principalmente no caso de Belo Horizonte?
As informações coletadas nas vistorias, hoje em torno de 650, já demonstram seu potencial, tanto para o reconhecimento das causas dos acidentes, como na identificação de falhas de infraestrutura. No caso de Belo Horizonte, vale ressaltar o apoio da BHTrans [Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte] para colocar em prática esta proposta diferente de coleta de dados. A flexibilidade para identificar novas metodologias e ferramentas contribui para a melhoria dos serviços prestados à população. Em maio, a coleta de dados utilizando esta metodologia completou dois anos, consolidando o Projeto de Vistoria de Acidentes de Trânsito da BHTrans. Considero isto uma grande conquista, pois demonstra a importância do tema para a cidade.
Esse formulário pode ser aplicado em qualquer cidade brasileira?
Sim. O formulário foi desenvolvido pensando em satisfazer qualquer condição. A proposta é poder atender às necessidades de cidades de qualquer tamanho, incluindo as estradas. É bom lembrar que muitas estradas cruzam cidades e que ali é que acontecem os acidentes mais graves. A metodologia pode ser aplicada por diferentes tipos de instituições, públicas ou privadas, desde que haja um planejamento adequado da coleta dos dados.
Como foi feita a escolha dos dados que deveriam constar no formulário de vistoria?
A construção do formulário obedeceu a uma metodologia científica. Foi feita uma pesquisa aprofundada que incluiu formulários aplicados em países que são referência em segurança viária. Selecionamos todas as variáveis e confrontamos com a realidade e as necessidades do Brasil. O trabalho foi bastante minucioso e inclusive testamos algumas versões antes de aprovar o formato utilizado hoje.
Quais desses itens registrados hoje não eram considerados nos relatórios de acidentes de trânsito antes da sua metodologia?
A metodologia propõe ferramentas mais completas, visto que dispõe de uma lista de fatores contribuintes para identificar as possíveis causas dos acidentes. Além disso, o formulário contempla informações de características do local do acidente, circunstâncias presentes no momento do acidente, informações mais detalhadas sobre os veículos e usuários. Tudo isso está disposto na forma de perguntas fechadas auxiliando na coleta dos dados. Em geral, os relatórios de acidentes contêm muitos campos descritivos e somente esta característica já dificulta a formação de uma base de dados e a definição de quais informações são registradas.
Qual a importância das parcerias na aplicação desse estudo?
As parcerias foram fundamentais para o desenvolvimento da metodologia. Como grande parte do conhecimento científico e das pesquisas mais avançadas vem de fora do país, somente com estas parcerias podemos encontrar a experiência prática, inclusive para adequar as pesquisas dentro das necessidades do Brasil.