São Paulo e o trânsito de bicicletas na periferia
Publicado em 31/07/2014

Com a aprovação do Plano Diretor Estratégico, a Prefeitura de São Paulo deverá colocar em prática novas propostas de resgate da cidadania nos territórios mais vulneráveis, garantindo ações integradas em toda a periferia. Na área dos transportes, a última pesquisa Origem/Destino realizada na capital paulista mostra que houve uma redução de 30% do uso de bicicletas nas regiões mais afastadas, enquanto o chamado cento expandido registrou um aumento de 70%.
Foi pensando nisso que a rede Bike Anjo, em parceria com o coletivo oGangorra + Las Magrelas, convidou a EMBARQ Brasil, no início de julho, para apresentar o Manual de Projetos e Programas para Incentivar o Uso de Bicicletas em Comunidades, lançado em maio no Rio de Janeiro. O encontro “Papo Reto: como promover a bicicleta em comunidades” contou com as presenças da coordenadora de Projetos de Transporte da EMBARQ Brasil, Paula Santos Rocha, e a especialista em Desenvolvimento Urbano, Lara Caccia, que apresentaram os elementos básicos de um sistema cicloviário de qualidade, além de mostrar um conjunto de programas educativos, de fiscalização e incentivos para que os moradores convivam e usufruam do novo ambiente a partir da utilização da bicicleta como meio de transporte. O estudo, financiado pela Bloomberg Philanthropies, foi desenvolvido pela EMBARQ Brasil em parceria com a COPPE/UFRJ e o Lincoln Institute for Land Policy, sendo apoiado também pelas secretarias municipais de Habitação e de Meio Ambiente do Rio.
A ideia inicial da publicação surgiu ainda em 2011, em reunião em conjunto entre as secretarias e especialistas internacionais em urbanismo da Alta Planning. Desde lá, foram feitas visitas a campo em comunidades de diferentes topografias, planas e íngremes. Nestes locais foram constatadas as reais necessidades dos ciclistas e potenciais usuários do modal. A publicação é resultado de um trabalho criterioso de pesquisa e visitorias ao longo de dois anos na cidade do Rio de Janeiro e traz diretrizes técnicas para infraestrutura, educação, incentivo, fiscalização e promoção da equidade. “Essas modificações na infraestrutura fazem com que as pessoas usem as bicicletas nas comunidades e deixem de usar outros tipos de modais não sustentáveis, que tem trazido impactos severos na saúde pública, como a motocicleta, por exemplo”, disse Paula Rocha, coordenadora de Projetos de Transporte da EMBARQ Brasil.

A jornalista Natália Garcia, especializada em planejamento urbano e idealizadora do projeto Cidades para Pessoas, também foi convidada a participar do debate, ao lado da jornalista Evelyn Araripe, coordenadora do projeto Escolas de Bicicleta em São Paulo. “As periferias são os lugares que vão explodir urbanisticamente nas próximas décadas no Brasil e no resto do mundo. Se não tivermos um foco muito claro no tipo de cidade que pretendemos criar nesses lugares, certamente seremos reféns e não protagonistas deste processo”.
No encontro, estiveram presentes o coordenador do projeto Pedala Zezinho/Aromeiazero, Murilo Casagrande e o criador do Pedal Social, Lincoln Paiva, que relembrou o início das suas intervenções no espaço público, quando instalava bicicletários em vagas que seriam utilizadas por carros. Irene Quintáns, criadora da Red Ocara, especialista em estudos territoriais, políticas sociais e mobilidade, falou do processo de urbanização de Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo.
“Nós fizemos esse projeto com a participação da comunidade, descobrindo as demandas da população. Muitas vezes os projetos são montados em função dos deslocamentos realizados, mas não levam em consideração os desejos e as necessidades das pessoas”, salientou a especialista da EMBARQ Brasil, Lara Caccia.
JP Amaral, fundador do Bike Anjo, fez uma breve avaliação do manual . “Ele serve muito bem para orientar arquitetos e urbanistas, ou seja, vocês estão antecipando as políticas públicas. O nosso papel agora, como cicloativistas, ou como organizações que estão promovendo a mobilidade nas cidades, é justamente tentar antecipar essas ações e acompanhar o que está sendo implantado pelos governos nos mais diversos níveis”.

Pedalando entre os carros
A pesquisa Uso de Bicicletas na Região Metropolitana de São Paulo mostra que o Grajaú, na zona sul, é bairro campeão de uso de bicicletas, com 9,4 mil viagens por dia. Divulgado pelo Metrô de São Paulo, o levantamento aponta ainda que 70% das viagens feitas diariamente com bicicleta na cidade são a trabalho, representando 214 mil pessoas. Se forem levadas em conta outras atividades, como ir ao dentista ou escola, por exemplo, esse índice sobe para 96%. Somente 4% dos entrevistados utilizam a bicicletas para lazer, como pedalar nos parques.
No mês passado, foi aprovada a proposta de implantação de 400 km de ciclovias na cidade. São Paulo conta hoje come 270 km de infraestrutura cicloviária de circulação, composta por ciclovias, ciclorrotas, calçadas compartilhadas, ciclofaixas definitivas e ciclofaixas operacionais de lazer. Também estão implantadas 180 estações de bicicleta pública, 165 do BikeSampa e 15 do CicloSampa, que disponibilizam mais de 1.700 bicicletas para a população. “Além de oferecer um sistema amplo e conectado à rede de transporte, São Paulo também precisa criar uma estrutura que consiga garantir a segurança dos ciclistas", completou a especialista da EMBARQ Brasil, Paula Santos Rocha.
Projetos que podem mudar o futuro de São Paulo
Escolas de Bicicleta – Apoiado pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, o programa é direcionado a alunos entre 10 e 14 anos do ensino fundamental. O Centro de Convivência Educativa e Cultural de Heliópolis e cada um dos 45 CEUs da Rede Municipal de Ensino disponibilizaram mais de 100 bicicletas, atendendo um total de 4.600 alunos, que podem se locomover de casa para a escola, caso apresentem boas notas e saibam cuidar do equipamento.
Pedala Zezinho – Pelo terceiro ano consecutivo, o Instituto Aromeiazero realiza, junto com a Casa do Zezinho, o projeto Pedala Zezinho, na Zona Sul de São Paulo. Com atividades educativas, distribuição de bicicletas e mecânica comunitária, o objetivo é levar mais bicicletas e a discussão sobre mobilidade para crianças e jovens da periferia.
Pedal Social – Projeto voltado parar reduzir o impacto do custo do transporte. A ideia surgiu depois que um estudo mostrou que 18% da população de baixa renda de São Paulo tinha alguma dificuldade para se deslocar até o trabalho. O programa estabeleceu estratégias para garantir que os moradores da periferia também tivessem oportunidades de locomoção, como o empréstimo de bicicletas.
Bike Anjo – Atividade voluntária desenvolvida por ciclistas apaixonados pela cidade e esperançosos por uma melhor qualidade de vida, com menos poluição e barulho, numa convivência pacífica no trânsito. Trabalham por mais bicicletas nas ruas, oferecendo orientação gratuita aos iniciantes, ensinando como se portar no trânsito.