O risco da velocidade: o que é possível fazer para tornar as vias mais seguras

Workshop avalia o projeto da Área 40 de São Miguel Paulista e aponta o design urbano e a redução dos limites de velocidade como ferramentas para salvar vidas

Cerca de 100 pessoas acompanharam as atividades do evento, que analisou o projeto piloso para a Área 40 de São Miguel e debateu aspectos de design urbano seguro (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Acidentes de trânsito são a principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos e a segunda principal causa de mortes no mundo entre crianças com idade de cinco a 14 anos. Pedestres e ciclistas podem representar até metade dessas mortes, com os idosos sendo os principais atingidos entre os pedestres. O problema é mais do que uma questão global de saúde pública: é algo que está colocando em xeque nosso futuro, o futuro das gerações mais jovens e a segurança e qualidade de vida de todos.

Esse foi o tópico central da “Oficina sobre o projeto de requalificação urbana e segurança viária para a área 40 de São Miguel Paulista”, realizada entre os dias 2 e 4 de fevereiro, em São Paulo. O evento é parte das atividades apoiadas pela Iniciativa da Bloomberg para Segurança Viária Global e foi realizado com a colaboração da Prefeitura de São Paulo, da NACTO e do ITDP Brasil. Focado na adequação viária a limites reduzidos de velocidade, o workshop contou com a participação de Marta Obelheiro, Coordenadora de Segurança Viária do WRI Brasil Cidades Sustentáveis; Skye Duncan, da NACTO; Danielle Hoppe, do ITDP Brasil; e Ciro Biderman, da SPTRANS, entre outros especialistas.

A oficina tinha como objetivo difundir conceitos e práticas de design seguro para as vias urbanas entre arquitetos, engenheiros e designers urbanos tanto da prefeitura quanto da sociedade civil e de empresas, em um total de aproximadamente 100 participantes. Além da apresentação dos conceitos, a programação incluiu também a apresentação às equipes técnicas da cidade do projeto de redesenho viário da Área 40 de São Miguel Paulista, prevista para 2016. As equipes que acompanharam as atividades tiveram a oportunidade de aprofundar os conhecimentos em diretrizes de redesenho seguro e participar de uma vistoria técnica na área, com o objetivo de aplicar os conceitos apresentados. O redesenho de São Miguel Paulista deve servir de modelo para a adequação viária de outras áreas com velocidade reduzida implementadas na cidade. "A ideia de segurança viária é mais ampla do que se imaginava no passado. Com esse projeto, queremos ir além das medidas usuais: buscamos uma interação com o desenho urbano que muda completamente o que se pensava há 30 anos", explicou Ciro.

A oficina contou ainda com a participação de representantes da SP Urbanismo, da 23 Sul, que apresentou o projeto para a Área 40, da Fundação Getúlio Vargas, da Copanhia de Engenharia do Tráfego de São Paulo (CET) e da subprefeitura de São Miguel Paulista.

Desenho urbano e redução das velocidades: ferramentas para salvar vidas

O aumento da velocidade de 30 km/h para 50 km/h eleva as chances de morte em 70% para as pessoas atingidas. Se o veículo estiver trafegando a 70 km/h, esse índice chega aos 100%.

(Fonte: WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Em vias urbanas, onde a movimentação de pedestres é intensa e constante, a adoção de limites de velocidade seguros não é apenas uma boa ideia: é necessária para evitar, pelo menos em parte, as milhares de mortes no trânsito registradas no Brasil. Essa redução, contudo, vai além da mudança de um número em uma placa: “O papel do ambiente é passar para o usuário uma mensagem de o que ele pode ou não fazer. Por isso, é importante pensar o desenho urbano voltado para as pessoas", iniciou Marta.

Especialista do WRI Brasil Cidades Sustentáveis apresentou elementos de design que contribuem para o tráfego em velocidades mais baixas (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

O aumento de apenas um metro na distância de travessia para pedestres representa um aumento de 6% no risco de morte. Assim, um ambiente urbano seguro é desenhado de forma a oferecer condições adequadas para que essencialmente as pessoas possam circular em segurança. Lombadas, rotatórias e extensão das calçadas são alguns exemplos de elementos que podem ser implementados a fim de que os veículos sejam obrigados a circular em velocidades mais seguras. A especialista do WRI Cidades listou algumas maneiras de encorajar a redução dos limites de velocidade nas cidades:

  • alterar a forma viária e a maneira como as pessoas interagem com a infraestrutura;
  • modificar o ambiente, de forma que o tráfego em altas velocidades se torne fisicamente difícil;
  • engajar a comunidade, com educação e fiscalização.

Danielle Hoppe, do ITDP Brasil, ressaltou a necessidade de que as políticas e investimentos sejam pensados para além dos veículos e ter como foco as pessoas. Uma das ferramentas para isso, na visão de Danielle, é a aplicação dos conceitos de Desenvolvimento Urbano Orientado pelo Transporte Sustentável (DOTS). Promovendo o uso misto, os meios de transporte ativos e sustentáveis (caminhada, bicicleta e transporte coletivo) e áreas mais compactas, que possibilitem deslocamentos mais curtos, as cidades têm o potencial de reduzir o risco de acidentes e, consequentemente, de mortes. Essa mudança, como observou a especialista, não precisa acontecer do zero; ao contrário, pode ser feita em áreas já existentes: “É preciso valorizar as oportunidades que temos dentro das nossas cidades, como ruas que já têm potencial e não estão sendo exploradas da maneira correta. Não é preciso esperar um novo bairro nascer para criar espaços para as pessoas, é só observar o potencial da cidade”.

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Cidades compactas e conectadas potencializam a segurança (Fonte: ITDP)

As palavras que Skye Duncan escolheu para dar início à sua apresentação não poderiam ser mais pertinentes ao momento: “Uma pessoa morre a cada 30 segundos, isso é um dado muito assustador. Só no tempo que estamos aqui, nessa uma hora e meia de seminário, 180 pessoas morreram”. Em todo o mundo, 1,2 milhão de pessoas perdem a vida em acidentes de trânsito. Reduzir esses números requer, ao mesmo tempo, mudanças políticas e estruturais. A respeito das últimas, Skye falou ao apresentar os principais conceitos do Global Sreet Design Guide. O guia, produzido pela NACTO, será publicado em 2016 e traz exemplos de boas práticas de design que podem ser aplicadas para tornar as vias urbanas mais seguras para pedestres e ciclistas. “Pessoas no mundo todo estão fazendo essas mudanças. Agora, em São Paulo, podemos fazer isso possível também”, encerrou.

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Ruas seguras: divisão equilibrada do espaço e condições adequadas para todos (Fonte: NACTO)

O workshop também contou atividades externas. Acompanhados pela equipe de segurança viária do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, em uma vistoria técnica os participantes conheceram e avaliaram as condições da Área 40 de São Miguel Paulista. A área que receberá as intervenções fica entre as avenidas Marechal Tito e Nordestina e as ruas Dr. José Guilherme Dias, Pedro Soares de Andrade, Severina Leopoldina Sousa, Salvador de Medeiros e Rachid Athie.

Vistoria técnica: participantes avaliaram aspectos de segurança na área da Área 40 (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Fique Ligado

Newsletter

Inscreva-se para receber a newsletter do WRI Brasil Cidades Sustentáveis.

Increver-se