As mulheres movem a cidade

Aumentar a representatividade das mulheres nos espaços de tomada de decisão é essencial para a construção de cidades equitativas. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

 

As mulheres ocupam apenas 5% dos cargos de CEOs em organizações brasileiras. No Senado e na Câmara dos Deputados, embora se perceba algum crescimento ao longo das últimas décadas, a representatividade feminina ainda é muito pequena se comparada à dos homens. Esse cenário, que se repete em diversos países ao redor do mundo, foi determinado por um processo histórico que, ao estereotipar o sexo feminino como frágil e incapaz, excluiu as mulheres do processo de tomada de decisão por séculos.

No setor de mobilidade não é diferente. Especificamente no caso da cidade de São Paulo, onde apenas 6% das mulheres pedalam, compreender por que isso acontece e agir para mudar essa realidade é imperativo para que o ambiente urbano se torne um espaço, de fato, de todos. Nesta segunda-feira (5), o seminário “Mobilidade urbana e a perspectiva das mulheres”, organizado pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis em parceria com Cidade Ativa, Corrida Amiga, SampaPé, ITDP, Pé de Igualdade e ANTP, reuniu cerca de 100 pessoas para debater os principais desafios de mobilidade em São Paulo a partir da perspectiva de gênero.

Rachel Biderman, diretora executiva do WRI Brasil, enfatizou a urgência de promover a igualdade de gênero e a representatividade das mulheres nos diversos espaços da cidade: “O assunto de hoje perpassa todas as esferas da sociedade: os espaços que as mulheres podem ocupar e os desafios que encontram para chegar lá. Espaços públicos, espaços de participação e de tomada de decisão. Precisamos debater, dialogar e construir ambientes onde prevaleça a igualdade de gênero”.

Os debates do dia foram liderados exclusivamente por mulheres, entre especialistas e atuantes nas discussões contemporâneas sobre a cidade, e abordaram políticas públicas de mobilidade, os padrões de mobilidade urbana vistos hoje em São Paulo e os modos de transporte ativo e coletivo como fatores essenciais para uma mobilidade mais sustentável. O encontro também foi a oportunidade para apresentar uma carta de compromisso com a perspectiva de gênero na mobilidade urbana. O documento, que deve ser finalizado de forma coletiva pelas organizações presentes no evento, enfatiza a necessidade de as cidades diversificarem os espaços de discussão e promoverem processos participativos. Fundamentada na noção de que a cidade deve ser aberta e segura, um ambiente onde as mulheres possam usufruir seu direito de ir e vir sem riscos à sua dignidade e integridade, a carta propõe os seguintes compromissos:

  1. Paridade de gênero nos conselhos participativos.
  2. Compromisso com a oitiva de usuárias e usuários do sistema de mobilidade urbana.
  3. Participação de mulheres em todos os painéis, seminários e encontros sobre mobilidade urbana e urbanismo.
  4. Adoção de plano de promoção da equidade de gênero em todas as empresas e órgãos ligados a transportes, mobilidade e urbanismo.
  5. Obrigação de quota feminina ocupando cargos de gestão, decisão e representatividade do corpo de funcionárias e funcionários nas políticas de mobilidade nos órgãos públicos.
  6. Obrigação de quota feminina mínima no corpo de funcionárias e funcionários das estruturas organizacionais responsáveis pela mobilidade urbana.
  7. Criação de ouvidoria nos órgãos públicos para registro dos casos de constrangimento moral e sexual.

Políticas públicas e padrões de mobilidade: a voz das mulheres precisa ser ouvida

De modo geral, a voz das mulheres ainda não tem espaço nas esferas de decisão no Brasil. São Paulo não foge à regra. Meli Malatesta, do Pé de Igualdade, trouxe alguns dados emblemáticos da capital paulista que refletem a baixa representatividade das mulheres nos processos de tomada de decisão quanto à mobilidade urbana.

  • Fórum Nacional de Secretários de Transporte da ANTP: dos 75 cadastrados, 65 eram homens (86%) e apenas 10 mulheres (14%).
  • Fórum de Secretários Paulistas da ANTP: dos 191 cadastrados, 176 homens (92%) e 15 mulheres (8%).
  • Quadro de funcionários e estagiários da CET-SP: de 4.300 funcionários e estagiários, 3.700 são homens (86%) e 600 são mulheres (14%).

Ainda dentro da CET-SP, os homens também são a maioria nas funções de chefia. A começar pela presidência, atualmente masculina, a presença masculina ocupa a maior parte dos cargos na assessoria da presidência (7 homens e 5 mulheres) e na chefia de operações (52 homens e 7 mulheres), padrão que se repete nos demais setores. “O que se percebe com isso é que os espaços em que são decididas as políticas públicas de mobilidade, onde se dá a gestão da mobilidade na nossa cidade, são ocupados predominantemente por homens. Eles ainda decidem por nós. Isso precisa mudar”, afirma Meli.

Meli Malatesta, Marina Rara e Kamila Gomes (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

A baixa participação das mulheres nos processos de planejamento em uma cidade é reforçada, muitas vezes, por indicadores sociais, raciais e territoriais. No âmbito da gestão pública, as mulheres deparam-se com um desafio: serem levadas a sério. Em processos de tomada de decisão e ambientes onde ainda predomina a presença a masculina, o machismo muitas vezes ofusca ou menospreza a voz das mulheres. “É comum falar e o que você diz ser considerado “achismo” simplesmente porque foi dito por uma mulher. Essa é a realidade e é resultado de uma cultura ainda machista na gestão da mobilidade”, apontou Meli.

A desconsideração da voz feminina nas discussões é apenas uma das formas de violência cotidiana sofridas pelas mulheres. Soma-se a ela, como acrescentou Kamila Gomes, do Conselho Participativo de São Paulo, o racismo: “Quem segura a porta do elevador para mim são as pessoas negras. As pessoas brancas deixam a porta fechar. Isso é uma violência cotidiana velada, é racismo”. Em outras palavras: um ambiente urbano mais seguro e equitativo para as mulheres depende da compreensão de que a violência não é apenas física – ao contrário, assume diversas formas. Mais do que isso, tem entre suas causas não apenas agressões diretas, mas também a maneira como a própria cidade é planejada e construída. “A gestão pública deve atentar para a violência gerada pelas soluções urbanas vistas nos espaços públicos. A iluminação pública, por exemplo. É uma iluminação alta, muitas vezes acima das copas das árvores. Isso contribui significativamente para a falta de segurança percebida pelas mulheres, para o medo que sentem de andarem sozinhas à noite”, avaliou Marina Rara, jornalista que moderou o primeiro debate do dia.

Os principais desafios de mobilidade apontados pelas mulheres em São Paulo são a qualidade do transporte coletivo, ainda insuficiente, e o medo de andar sozinha na rua e/ou de sofrer assédio. Essas informações refletem a dimensão ocupada pela mobilidade no ambiente urbano: determina não apenas aonde é possível chegar e em que condições – no caso das mulheres, é um fator diretamente relacionado também à autonomia e integridade.

Segundo painel do dia, com as participações de Haydée Svab (USP), Marina Harkot (Ciclocidade), Rosemeiry Leite (CET-SP), Jamile Santana (La Frida) e Heloísa Mota (Greenpeace), analisou os padrões de mobilidade em São Paulo (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)


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