Ruas completas por mais qualidade de vida nas cidades

Publicado em 31/07/2014.

Antes e depois da intervenção em Buenos Aires que aumenta o espaço para os pedestres e reorganiza o tráfego. (Fotos: Jullian Alvarez e Gascon)

Desde o início do milênio, a frota nacional de automóveis quase triplicou enquanto a de motocicletas aumentou cerca de 650% (DENATRAN, 2013). Com mais veículos motorizados em circulação, cresceram também os congestionamentos, a poluição e as mortes. No ano passado, as fatalidades em acidentes de trânsito ultrapassaram a marca de 43 mil (22,5 mortos/100 mil habitantes), o equivalente a quase cinco mortes por hora. E o quadro pode se agravar.

Um recente estudo, da Rand Corporation, apontou que o Brasil tende a ter o maior VKT (quilômetros percorridos por veículos) per capita entre os países do BRIC, além de um nível de motorização superior ao da China, Índia e Rússia. Mas como modificar essa perspectiva? Um caminho possível é a priorização das pessoas em detrimento ao veículo particular no ambiente urbano, por meio da execução de projetos de “ruas completas” com requalificações de espaços públicos.

“Em sua origem, a rua não era apenas uma via de acesso a um local e, sim, o próprio local. Um espaço para se estar, passar o tempo, interagir com outras pessoas. Essa lógica original das ruas como espaços públicos de convivência e bem-estar voltou à tona de 10 anos para cá”, explica Michael King, primeiro diretor de traffic calming de Nova Iorque (EUA), projetista das primeiras ruas compartilhadas da cidade e especialista em desenhar redes viárias completas há 20 anos. Abaixo, o gráfico mostra o impacto que o uso do automóvel gerou, ao longo das décadas, na lógica original de uso das ruas:

Desenvolvimento da vida urbana de 1880 a 2005. (Fonte: New City Life. Gehl, Gemozoe, Kirnaes&Sondergaard, The Danish Architectural Press, 2006. In: IEMA. A bicicleta e as cidades: Como inserir a bicicleta na política de mobilidade urbana. São Paulo, 2009)

O conceito

Fonte: Michael King

Ruas completas são desenhadas para garantir acesso seguro a todos os usuários da via – sejam pedestres, ciclistas, motoristas ou usuários do transporte coletivo – de diferentes idades e habilidades. O conceito está intrinsicamente conectado ao contexto local. “Muitas vezes as ruas e os espaços públicos são pensados para induzir um comportamento esperado ao invés de contemplar as necessidades dos habitantes”, explica Lara Caccia, especialista em Desenvolvimento Urbano da EMBARQ Brasil. “Apesar das boas práticas serem ótimas referências, não se pode replicar conceitos sem levar em conta as características e especificidades de cada local, sob o risco de o projeto não dar certo. Em muitos casos, uma simples observação do comportamento dos pedestres pode ajudar a encontrar as soluções desejadas”, explica.

De acordo com os especialistas, uma rua completa deve incluir os seguintes atributos de acordo com as necessidades locais:

  • Moderador de tráfego
  • Acessibilidade universal
  • Sinalização clara e orientada ao pedestre
  • Mobiliário Urbano útil (lixeiras, bancos, iluminação dos passeios, etc.)
  • Faixas de segurança em locais oportunos
  • Estreitamento das travessias e ilhas de refúgio para pedestres
  • Diminuição da oferta de estacionamento gratuito
  • Ciclovias e/ou ciclofaixas
  • Faixas de ônibus preferenciais/exclusivas
  • Acesso facilitado ao transporte público e seus pontos de parada
  • Nivelamento da via com as calçadas

Fonte: National Complete Streets Coalition / Smart Growth America

'Linhas de desejo’ e redução da velocidade

A observação dos deslocamentos diz muito para os projetistas urbanos que trabalham a partir do conceito de ruas completas. Uma análise do comportamento do pedestre pode traçar as “linhas de desejo” das pessoas, que nem sempre são aquelas impostas pelo desenho urbano. A partir da observação dos trajetos e contagem de pessoas e veículos é possível propor soluções efetivas e criativas para a demanda mapeada.

A 'linha de desejo' geralmente corresponde ao caminho mais fácil encontrado pelo pedestre. (Foto: Georgie R.)

Uma pintura no pavimento para estreitar os raios de conversão de veículos motorizados, ilhas de refúgio e mais espaços qualificados para os pedestres são ações que podem garantir a segurança e o conforto para as pessoas que caminham ou optam pela bicicleta.

Outra medida importante é a redução da velocidade máxima para 30 km/h, o que diminui a chance de acidentes fatais para 10%. “Hoje as pessoas já estão dizendo: ‘não vou aceitar que meu filho seja morto no caminho para a escola’. As pessoas estão tomando essa causa e começaram a perceber que alguém morrer no trânsito não é acidente”, destaca Michael King.

Exemplos nacionais

Mesmo recente, o conceito de ruas completas já está tomando forma no Brasil. Algumas cidades já inauguraram vias que passaram por reestruturação de desenho com base nos padrões de ruas completas ou compartilhadas.

Curitiba

As ruas 7 de Setembro e Senador Alencar Guimarães são alguns exemplos da capital paranaense pela priorização das pessoas e compartilhamento do espaço público.

Rua 7 de Setembro, em Curitiba. (Foto: Murilio Cheli)

Rua Senador Alencar Guimarães. (Foto: Mariana Gil / EMBARQ Brasil)

Belo Horizonte

O centro da cidade recebeu modificações que tornaram o espaço de convivência entre pedestres, ciclistas, ônibus e automóveis mais harmonioso.

Foto: Mariana Gil / EMBARQ Brasil

São Paulo

Modificada por iniciativa de um empresário, a Rua Avanhandava hoje é uma atração a parte para turistas e residentes.

Foto: SP para Iniciantes

Palhoça

Em Pedra Branca está a considerada primeira rua compartilhada do Brasil.

Foto: Passeio Pedra Branca

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